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Não existir

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Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Qua Abr 02 2014, 22:28

(atenção: este texteco é só mais do mesmo, mais um texto sobre o facto de a vida ser uma merda, de existirmos pela metade, sobre dias sombrios que são todos os dias, etc, etc, etc. Caí aqui de para quedas, a fazer uma daquelas pesquisas, comecei a escrever e... ups)

Algures durante a adolescência criei um Eu de ficção, um Eu melhor. Um Eu mais alto, mais falador, mais à vontade, um Eu livre, com paixão pela vida.  Um eu cheio de qualidades que não tenho, mas que não me importaria nada de ter, um Eu com talentos múltiplos e que conseguisse que as pessoas gostassem dele, natural e instantaneamente. Há pessoas assim. Que entram num espaço e o iluminam, que geram paixões, admiração, pessoas com quem toda a gente quer estar.  Talvez não fosse preciso tanto, eu contentava-me com menos, bem menos, um meio termo já seria suficiente para eu me sustentar.
Muitas vezes imaginava aquele Eu alternativo em determinadas situações, lidando com problemas ou dizendo aquelas palavras cativantes e ficava a pensar por que razão não dizia eu aquelas coisas quando surgisse oportunidade? Não tenho a certeza. Essas coisas simplesmente não aparecem quando são precisas, ou por vezes essas coisas que o Eu alternativo diz são vagas demais, imagino-as em flashs, com cortes e sobreposições, às vezes até como num trailer de um filme, se preciso com trilha sonora ao fundo e tudo, uma coisa muito pouco apta a ser transportada para a vida real.
Desde muito novo faço projectos para me tornar numa pessoas melhor, incluia aspectos físicos, intelectuais, projectos para ser mais inteligente, mais forte, mais interessante, sociável, enfim.... queria que gostassem de mim, não toda a gente – nunca quis uma coisa estúpida dessas –, mas queria que as pessoas de quem eu gostasse, admirasse, gostassem de mim.
Nunca consegui cumprir por um único dia esses projectos. A verdade é que sou pouco intenso, desorganizado, pouco apto a grandes sacrifícios, incapaz de me dedicar a fundo a qualquer coisa que seja.
Meu sonho que vem desde a infância era tornar-me escritor. No entanto, passei anos a tentar e até hoje NUNCA escrevi nada até ao fim a não ser um punhado de contos pouco impressionantes. Sei que com muito esforço não escrevo mal, mas também sei que em mim não há nada que faça com que eu me destaque, com que a minha escrita possa ser digna de publicação, de atenção e sobretudo da paixão de leitores interessantes.
A minha vida amorosa é constrangedora. A minha maior tristeza é pensar que nunca abracei, beijei, tive qualquer espécie de relação amorosa por alguém por quem fosse apaixonado. As poucas raparigas com quem tive relações vagamente amorosas eram sempre raparigas que procuravam sobretudo entreter-se, acabar com a solidão. Eu não procurava coisa diferente, às vezes entusiasmava-me, mas apenas porque por instantes sentia-me capaz de me apaixonar por qualquer rapariga que me beijasse, abraçasse ou se despisse para mim. Coisa de gente sozinha. Todas estas amostras grátis de relações duraram pouco e eram todas meio às escondidas do resto da humanidade. Costumo preferir não pensar no por quê disso.

Decidi entrar para um curso universitário onde as coisas correram mal. Na vida académica eu era um fantasma. Nunca troquei uma palavra com boa parte da minha turma, o que faz de mim não apenas alguém pouco falador, pouco sociável, mas alguém verdadeiramente infantil. É meio ridículo mesmo.
Entrei para a licenciatura de 3 anos em 2007 e ainda não acabei. No final do ano lectivo de 2009/2010 faltavam-me 6 cadeiras. Hoje, em 2013/2014 faltam-me 6 cadeiras.
Nos anos em que as coisas iam, eu lá andava com aquela suficiência deprimente. Fui cumprindo – tirei apenas uma nota de que orgulhasse realmente, momento de gáudio. Até que cheguei ao último semestre e não fiz nada. Nada aconteceu, tudo parou, o canudo estava ali à frente e eu virei-lhe as costas. Tinha duas cadeiras para trás, uma porque simplesmente ainda não tinha tentado fazer por falta de tempoc(fiz sempre tudo por exame para escapar a apresentações orais), a outra porque é uma cadeira que exige a parte de intensa exposição oral.  Mas de resto fiz uma porrada de cadeiras e, no último semestre... nada. As coisas começaram a ruir aí. Lembro que fiquei dois dias sem dormir antes do último exame que tinha de conseguir passar para ter hipóstese de me licenciar na altura.

Agora trabalho junto de familiares, sem salário fixo, horário fixo. Já há 3 anos. No mínimo das 8h até às 20, 21h lá estou eu a trabalhar. Pode começar antes e prologar-se até 22h, 23h, meia noite, até mais tarde já aconteceu. Sento só para almoçar e mijar é um luxo. A folga só vale a pena por não estar lá. Meu trabalho é lidar com bêbados, gente mal educada, velhos nada simpáticos, ouvir conversas tediosas, nojentas, deprimentes que nos emburrecem. Servir gente medíocre, ignorante. Sirvo desde os bancários ridículos com mania de importância até a pedófilos ex-detentos, outros que se masturbam discretamente ao balcão a ver as prostitutas nos classificados do jornal. Sirvo emigrantes em férias, sirvo vendedores de ouro ricos e sem carácter.
Oiço reclamações todos os dias, a toda a hora. Levo com culpas de tudo. Faço coisas que nunca pensei fazer na vida que metem suínos, facas, sangue, serradura, intestinos, ratos, varejas, cheiros nauseabundos. Já limpei vómito que os alcólicos espalharam, já fui ameaçado de porrada. Tenho que lidar com vendedores, aturar gente falsa, chata, desinteressante, gente de plástico. Suportar o cansaço físico até ficar a tremer e a atirar-me da cama para o chão à noite com cãimbras nas coxas e nos gémeos. Ouvir queixas todo santo dia e ter um dedo apontado se simplesmente disser “piu”.
E dos meus pais... especialmente de um pai paranóico, autoritário, egocentrico, que faz dos outros especlhos dos próprios defeitos... só tenho deles mais inferno.
Ter de fingir, pôr a máscara de todos os dias, fingir não ter mágoas, fingir não haver o autoritarismo, o controlo doentio, a paranóia, a vitimização, o atirar de culpas, a perseguição, fingir que só podia contar com que me pusessem para baixo apontando-me os defeitos sem NUNCA ouvir um estímulo, uns parabéns por um pequeno feito que fosse, ouvindo que se aconteceu tal coisa foi porque eu sou um isto e um aquilo, que fiz assim e assado, sempre coisa más. Fingir que eu não sonho em fugir desde os 10, 11 anos. Fingir que não me torturo por não ter ido embora ainda.
A decadência dos dias, as pequenas desgraças, a perversidade dos outros, a minha, a miséria, tudo me engole. Os sonhos morreram cedo e a vida só parecia boa nos filmes e livros, que já não vejo nem leio porque quando me resta tempo não consigo concentrar-me neles.

E eis o súbito pensamento libertador: para quê viver se posso não existir?
Estar morto. Não acordar para viver esta vida. Já pensei em suicídio muitas, muitas vezes. Desde a pré-adolescência. Mas sempre foi uma coisa vaga, distante. De uns tempos para cá é mais concreto e próximo. Morrer. Não acordar mais. Não ser eu mesmo. Simplesmente não existir.
Não consigo mais iludir-me, fantasiar livremente que qualquer dia vou tornar-me numa outra pessoa e viver a vida boa que me espera. Não consigo mais fazerm projectos, fazê-los enoja-me.
Tornei-me no fracassado que sempre achei que iria me tornar e sofro daquela repulsiva autocomiseração e ao mesmo tempo desprezo pessoas com discursos de pena de si próprios, de pessimismo excessivo. Estúpido.
O suicídio está sempre no ar, como uma nuvem sobre a minha cabeça. Já li muito a respeito e não consigo decidir qual a melhor maneira. Como tem de ser já se sabe: rápido, indolor, como adormecer para nunca mais acordar.
Podia também ir embora. Desaparecer. Mas eu sou... como se chama? Sou meio covarde. É isso. Vivo com MEDO. Um cagão, portanto.
Não gosto de mim, da minha vida, de sentir constantemente preso, angustiado, triste, incapaz de ter paz, de ter um momento feliz (porque se uma coisinha me deixa feliz logo a minha mente lista todas as razões para que eu volte a sentir-me miserável).
Frequentei uma psicóloga mas nunca lhe falei de algumasdas coisas essenciais e a condução das nossas conversas muitas vezes escapava-me. Às vezes saia de lá pior, mais desesperançado, mais crente no fracasso da minha relação com as pessoas. Mas voltava muitas vezes. Deixei de ir depois de uma consulta particularmente má, onde fui para falar de algo importante e a conversa ia sempre para sítios que não mediziam nada. Depois tb fiquei com pouco dinheiro. Nunca mais voltei.
Há uns dois meses tive uma semana a dormir mal que acabou com dois dias seguidos sem dormir nada. NADA. Não consigo descrever como me sentia. Nada era real. Eu era o lixo da escória da merda da porra da humanidade. Um trapo andante. Depois da segunda noite em branco entrei no meu dia de folga. Fui directo a um médico dos serviços universitários. Expliquei-lhe o problema de dormir. Queria ter dito outras coisas, mas entre mim e os outros há um muro. Receitou-me xanax e sargenor. Tenho que dizer que o xanax caiu do céu naquele dia. Precisava mesmo dormir. Eu queria dizer naquela altura a alguém: sabem o que é trabalhar sem dormir mais de 4 horas por noite e não dormir NADA na última, trabalhar 13 horas de pé a servir almoço, lanches, bebidas das 8 da manhã até sei lá quantas da noite, ao almoço subindo e descendo escadas, sem ter dormido?!?! Mas não tinha com quem falar e se tivesse, essa pessoa ia dizer que imaginava e eu ia achar que não, que nem imaginar ela conseguiria.
Não gosto lá muito do efeito de sono deplástico do xanax. Mas preciso dele. Não tomo todos os dias. Li tanta porcaria na internet sobre o vício que causa que decidi cometer esse pecado que é tomá-lo à minha maneira. O médico disse para eu tomar 2 mg todos os dias à noite. Mas eu só tomo quando passa um bom tempo e eu não adormeço, ou quando eu to tão frenético dentro desta minha cabea phodida que sei que vou precisar.
Este ano voltei à faculdade à custa de muita burocracia e desgaste financeiro. Quando vou lá sou um fantasma. E a ansiedade tortura-me. Certa vez fui ao horário de atendimento de um professor, esperei à porta da sala dele e quando o ouvi subir, senti-me tão nervoso, tão desesperado que fugi. Para sair sem passar por ele (entrada e saída únicas) tive de pular por uma janela e esfolar-me todo no chão. E isto é só um episódio.
Costumava correr, a minha psicologa aconselhou-me. Depois de meses de corrida uma vez por semana (com o trabalho cansativo que tenho não dava pra mais) no princípio de Janeiro fui correr mais cedo. Achei “engraçado”. Tive pensamento absurdos, do género “se estou bem a correr aqui não preciso voltar pra casa, posso ficar a correr”. E corri. Não faço ideia de quanto tempo corri. Foi muito. Resumindo a ópera, corri até perder o controlo das minhas pernas e cair espalhafatosamente no chão entre vários outros corredores que me vieram em auxílio apesar de eu querer desaparecer. Esfolei-me todo, minhas pernas nem sentia, mas elas mexiam-se sem que eu conseguisse parar. Fiquei cheio de dores por semanas. Nunca mais corri.
Voltei ao médico porque tinha acabado o alprazolam/xanax e já estava a desesperar. Perguntou-me pela vida na faculdade, disse-lhe alguma coisa, que a concentração era nenhuma. Demoro 10 vezes mais a ler uma página, esqueço-me logo do que li, não absorvo conceitos, não relaciono, nada. Mandou-me tomar fosfoglutina b6. Tenho tomado, com fé, mas a concentração continua em parte incerta. Disse-me também para ir a uma consulta de psicologia da universidade. Fui. Um desastre. A psico mandou-me fazer um horário numa folha com os dias da semana, preenchi o trabalho e ela disse-me que era impossível eu acabar o curso este ano com tão pouco tempo livre. Para eu dividir as cadeiras entre este ano e o próximo. E eu, quase com 26 anos, a viver à custa dos pais que descrevi (e descrevi pouco), digo “sim, ok”. Depois ela fala-me da crise, que o melhor que se faz é emigrar, fala-me que lhe cortaram os rendimentos, fala, fala, fala e eu rezo, rezo, rezo para que aquilo acabe e eu possa sair dali. Procurei um atendimento especializado e encontrei alguém que deu-me uma tabela para eu desenhar uns horários, que me disse o que eu já sabia, não me perguntou nada sobre os meus problemas de sono e que discorreu sobre a atualidade do país e a sua vida pessoal. E nem aí se sobressaiu, os problemas dela são iguais ao de todos os outros e a opinião dela não passa de eco de tudo que já oiço todo santo dia. Não que não concorde, concordo sim. Mas fui à procura de atendimento especializado. Fui à procura de ajuda. Preciso da merda de ajudar e não de mais conversa fiada. Que porra eu faço??
Penso em suicídio todo santo dia. Desejo-o intensamente algumas vezes por semana. Às vezes sinto-me a rondar aquele impulso de morte, aquele momento em que nada importará definitivamente e aí então vou ter coragem de me matar. Mas falta esse quase, que é no fundo a essência da coisa.
Preciso de ajuda e não consigo ligar-me às pessoas.
As minhas palavras não valem nada, os meus pensamentos e sentimentos ficam para dentro. A verdade não existe cá fora.  Não há nada a dizer. Todos estão longe.

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Re: Não existir

Mensagem por Huan2 em Sex Abr 04 2014, 10:27

é um dos textos melhores aqui do forum! que é que posso dizer mais...
... suicídio não é a solução.
Devias sair desse esquema laboral que te causa stress extremo. Como já foste universitário, calculo que tenhas vivido sozinho e que te tenhas desenrascado.
És um rapaz inteligente, dá p'ra ver. Mas direccionas a tua inteligência para o pessimismo. Podes inverter isso, educando a tua mente.
Tenta procurar emprego onde estudas-te e vai fazendo as cadeiras a pouco e pouco. Com calma, nem que seja em mais dois ou três anos. Longe do regime familiar. Torna-te independente, para que possas sair disso. Não tenhas medo, mas sim coragem.
Agora a parte fisiológica, faz umas análises a vitaminas, minerais, catecolaminas, hormomas e por aí para veres se tens alguma carência ou excesso de algo.
Em caso de carência, que é mais provável, repõe através de suplementos, uma alimentação mais equilibrada e algum desporto, mas que te alivie e que não te stress e caias :p .
De resto, fica ao teu critério, cria hábitos mentais diferentes aos poucos, que te façam sentir bem. Se te faz sentir bem, enraíza-o.
Não tenho muito mais a dizer, escolhe o caminho que te dá prazer e não aquele que estás a viver.

P.S. Faz-me confusão um texto destes ainda não ter sido comentado aqui no forum, lamentável.

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Re: Não existir

Mensagem por bichobrabo em Sex Abr 04 2014, 12:10

Estás metido numa bela alhada. Mas tudo pode ter uma solução.

Só há uma pessoa que te pode ajudar, tu próprio. E que tal meteres esses miolos (que aparentemente são de boa qualidade) a funcionar em teu proveito?

Tens de afastar dessa tua vida de merda e encontrar o teu caminho. Acho que o teu problema se resume a isto.

Ter de fingir, pôr a máscara de todos os dias, fingir não ter mágoas, fingir não haver o autoritarismo, o controlo doentio, a paranóia, a vitimização, o atirar de culpas, a perseguição, fingir que só podia contar com que me pusessem para baixo apontando-me os defeitos sem NUNCA ouvir um estímulo, uns parabéns por um pequeno feito que fosse, ouvindo que se aconteceu tal coisa foi porque eu sou um isto e um aquilo, que fiz assim e assado, sempre coisa más.

E começa a dar um salto ao ginásio. Mas para isso precisas de descansar.

Pronto, acho que o que disse podia ter sido dito por qualquer bêbado num café...

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Re: Não existir

Mensagem por HugoSousa em Sex Abr 04 2014, 15:29

Li o teu texto todo.

De facto estás num turbilhão bem lixado.
Não sei como te dizer como te hás-de soltar disso

Posso dizer-te sim que durante anos depois de ter desistido do curso (com a tua idade) tive pesadelos sobre isso, sobre o voltar e fracassar, e em particular por não o ter acabado.
Mesmo que o canudo não te venha a ser útil profissionalmente deves arrumar-te o suficiente para mostrar a ti que o conseguiste.

Posso dizer-te que pelo modo como escreves directamente, sem revisão nem estruturação prévia, será uma perda enorme se nos deixares.

Usa essas tuas duas personagens que partilham o mesmo sentir, a que adormeceu e deixou de sonhar e a que se arrasta diariamente. Tens ferramentas em ti que não se ensinam, usa-as, escreve, primeiro tens de te arrumar, mas usa-as.

É possível sair disso sim, ainda que com orientação mas a maior parte terás de ser tu a superar, com tempo, não deixes queimar muitos mais anos.

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Re: Não existir

Mensagem por Beli em Sex Abr 04 2014, 17:38

Também eu li com calma todo o teu texto e mexeu comigo. Escreves muito bem, mesmo como o Hugo Sousa disse sem revisão e estruturação prévia resultou um desabafo tocante. Tu tens uma enorme sensibilidade, que poucos se podem orgulhar e posso dizer quase como um dom de tocar os outros, mesmo que penses o contrário.

Gostaria de te ajudar, mesmo sem saber como. Não desistas por favor da Vida! Agarra-te à tua força interior que existe de certeza, no meio de todo esse desespero. Sabes eu tenho um filho da tua idade, também com alguns problemas, pela falta de emprego e pespectiva de um futuro e neste momento só consigo sentir uma lágrima a deslizar pela cara, porque ninguém deveria sentir-se assim sobretudo nessa idade.

se te sentires à vontade envia-me uma mensagem privada, que eu dou-te o meu contacto e podes falar comigo, desabafar, se assim o entenderes. Não sou profissional na área de saúde ou terapia, ou algo semelhante,sou apena uma pessoa também com problemas mas que gostaria de te ajudar. É apenas uma mão que te estendo. Mas sobretudo olha para os comentários dos colegas acima e aproveita o que fizer sentido para ti.

Mas por favor nunca, nunca desistas. Olha a vida de frente de certeza que alguma coisa boa, por muito fraca que seja vais encontrar. Agarra-te a ela e alimenta-a. E escreve, escreve...quem sabe o teu sonho não ganha forma como o do HugoSousa, que publicou mesmo um livro.

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Re: Não existir

Mensagem por Denize em Dom Abr 06 2014, 02:07

Nossa, que história!
Olha, tenta mudar de emprego, sei que deve ser difícil, mas acho que seria de grande ajuda. Novas pessoas, novos caminhos... Agora, por favor, DESLIGA-SE DO SUICÍDIO. Você é novo, nada está perdido, ainda há tempo, agarre-se a sua faculdade, com dedicação você pode criar uma perspectiva. Sei que muita gente já deve ter te dito isso: "vai, não desista, mude, você tem uma vida inteira pela frente..." Para quem está de fora é fácil falar palavras de motivação, só quero que você se lembre que a vida não é fácil, tenho sua idade, sou hipocondríaca e ansiosa, mas tenho orgulho de mim hoje, mas já passei também por tanta angústia e medos que via a morte como única solução. Gosto de sair para o meu trabalho, chegar em casa, ficar com minha família. Acredite, as portas se abrem. Sou do Brasil, não te conheço, mas sua história me comoveu, se me permitir orarei por você, não sei se tem alguma crença, mas a fé mudou minha vida, e quero que algo de bom aconteça para ti também. E não deixe de buscar ajuda médica, trate-se com responsabilidade e dedicação e não desista!

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Re: Não existir

Mensagem por Buk em Seg Abr 07 2014, 05:12

Olá, me identifiquei com você em várias partes do seu relato. Também nunca me relacionei amorosamente com alguém que, de fato, amasse ou estivesse apaixonado. Também moro na casa do meu pai, e trabalho no negócio da família, mas trabalho menos que você e meus pais já faleceram. Também tenho problemas sociais e sinto que meu desprezo e raiva são tão incomensuráveis a ponto de eu simplesmente desconsiderá-los, pois, considerá-los seria cometer atrocidades e consequentemente ser alvo de iguais atrocidades. Tenho medo, como você, sou covarde, há um grande medo que prende nosso ser de agir de acordo com nosso próprio ser. Você escreve bem e em várias partes do seu texto achei que o conteúdo era realmente engraçado. Você tem noção de que és engraçado? "Entrei para a licenciatura de 3 anos em 2007 e ainda não acabei. No final do ano lectivo de 2009/2010 faltavam-me 6 cadeiras. Hoje, em 2013/2014 faltam-me 6 cadeiras.", isso é engraçado, por exemplo.

Também não consigo mudar. Mudar é difícil. Requer que façamos diferente para sermos diferente. Acho que a saída para nós é mudar.

Escreva mais,
Força.

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Re: Não existir

Mensagem por Panda em Qua Abr 09 2014, 03:00

Pulp fiction adoro! Adorei o teu texto. Escreve sim, escreve assim, forte e duro.
Arranja outro trabalho, ja tens a experiência, sai daí. So te falta o ultimo esforço entendes? Aque que vai fazer a diferença.

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Seg Abr 28 2014, 22:06

Li os comentários. Agradeço a todos por cada vírgula. Como eu estou/sou agora não há bom sentimento, sensação, pensamento que dure mais do que um instante breve. Acaba sempre engolido pelo negrume. Mas, ainda assim, valeu a pena sentir-me compreendido e menos sozinho. É bom num momento em que se está rodeado por pessoas de visão estreita que nos fecham num mundo que nos diminui constantemente, ter acesso a opiniões e visões de fora. Saber o que dizem os outros. Faz com que, pelo menos, eu possa dizer a mim mesmo que não sou louco.

Fui lendo os comentários, mas tenho pouco tempo. Quase nenhum para me sentar ao computador e escrever respostas.  Mas queria frisar o meu agradecimento a Huan2, bichobrabo, HugoSousa, Beli, Denize, Buk e Panda. Não esperava consequências do meu desabafo e, para quem vive fechado num concha como eu e passa a vida mascarado, foi diferente. Um diferente bom.

Vim de duas semanas sem folgas, trabalhando 8h em dois dos dias, e entre 12 a 14 horas em todos os outros. No Domingo de Páscoa trabalhei correndo de um lado para o outro sem interrupção. Tive pessoas a buscar encomendas insatisfeitas e que entravam pelo balcão a dizer-me para tirar mais da encomenda de outros. Tive gente a berrar e o meu nome foi repetido vezes sem fim. Parecia um efeito de cascata – um chamava-me e todos à volta chavam-me em seguida. Servi sozinho um balcão cheio de gente a buscar encomendas, muitos saiam insatisfeitos e eu fui o único a dar a cara. Meu pai ficou na cozinha, mesmo quando não era preciso – não queria dar a cara por encomendas que saiam semi-queimadas e coisas afim. E pior.

O restaurante estava tão cheio que, mesmo com todos os funcionários, houve clientes insatisfeitos. Um tipo desceu da sala de cima para reclamar. Não o tinha servido, não sabia do que ele estava a falar. E, no entanto, sem que eu lhe dissesse nada, ofendeu-me repetidamente. Vagabundo, palhaço, bandalho, é o que me lembro. Casa cheia, o meu nome repetido sem parar, eu a correr sem parar desde 8h da manhã. Não aguentei e comecei a brigar com o homem, gritei, respondi, mandei-o embora, berrei que não falava com gente mal educada, fiz uma cena, estava a sala de baixo toda a olhar. Disse que o almoço dele pagava eu – já tinha perdido o controlo – e dei-lhe as costas.  Aí meu pai entrou em cena fazendo o género desentendido e calmo quando tipo falou em polícia e que não tinha ofendido ninguém...  E para piorar: a chefe da minha mãe estava naquele momento lá, para buscar uma encomenda, pela 1ª vez. Teve lá uns 10 minutos, talvez nem tanto. E a cena foi acontecer logo nesse espaço de tempo.

Tive de andar a explicar-me aos clientes, a receber comentários e olhares de quem julga que as pessoas que trabalham atrás de um balcão são seres inferiores.  Ao fim do dia sentia-me tão mal, ansioso há tantas horas, aquela dor no peito a ir e vir, uma extenuação da ponta do corpo até à ponta da alma e aquele horror pessimista de quem não vê nada no horizonte. Andava de um lado para o outro a imaginar “e se eu me deitasse aqui e agora no chão?” e a pensar que poderia vomitar em cima de alguém a qualquer momento.


E depois veio a folga. Após uma noite em que dormi pouco mais de quatro horas fui encontrar o meu irmão mais novo num estado lastimável. Nessa noite ele teve uma enxaqueca. Vomitou no chão do quarto. Fui lá limpar, ele estava mal. Enquanto eu limpava a gata que mora nessa casa entrou, encontrou o vomito do meu irmão no chão, e vomitou também. Lá fui eu limpar.

No dia seguinte o meu irmão estava meio catatónico, stressado, com ataques de ansiedade, isolando-se no sofá da sala para ficar a olhar para a tv sem fazer nada. Fugindo da rua para casa por não conseguir estar com as pessoas. Em pleno final de semestre, cheio de trabalhos, num curso muito exigente e esgotante.

A maior parte dos sintomas eu reconheço-os, revejo-me neles especialmente no contexto em que eles aparecem. E penso na altura em que tudo parou para mim. Em que eu entrei no último semestre e ia me licenciar – o exacto caso dele –, e parei para não mais voltar. Sei exactamente pelo que ele está a passar. O desespero é enorme – como se não bastasse, o meu irmão vai pelo mesmo caminho.

Por outro lado, sei que as coisas não vão ser iguais. Apesar de tudo, somos bem diferentes em vários aspectos. Não tenho a disciplina dele, por exemplo.

Desde ontem que ele diz que melhorou um pouco. Que vai variando o estado em que se sente pior e em que se acalma. Falava mais da dor que sente no peito. Eu digo-lhe que sei como é, para ele não entrar na paranóia de que tem alguma coisa cardíaca, que aquilo é da ansiedade, pressão, etc. Mas digo também para ele ir ao médico novamente, já que ele já lá foi uma vez. Anda a tomar Valium.

Eu tentei marcar outra psicóloga na universidade e disseram-me que aquela a que eu já fui é a única disponível. Não vou perder o meu tempo a ir lá.

Sou atacado por uma sensação de horror volta e meia. É difícil explicar. Sinto horror. Esperança é uma palavra tão vaga quanto felicidade, sonho ou amor. Não tenho nada a que me agarrar. Não sou capaz de fazer planos, imaginar outra vida, acreditar, ter perspectiva, agarrar-me a objectivos. Não há nada no horizonte. Está a chegar o final do semestre e não tenho apontamentos por onde estudar, não tenho previsão do tempo que vou ter para estudar, ou sequer se vou ter folga para ir aos exames. De qualquer maneira se não tiver tempo para ir caçar apontamentos e para estudar não preciso de ir a exame. E só de pensar sobre isso já começo a ter a minha cabeça a explodir, a minha respiração a acelerar, a minha barriga em montanha russa, um arrepio desagradável na nuca, uma noção pessimista que cai na minha cabeça como uma bigorna.

Um dia fui a uma aula – esforço tremendo – de uma cadeira opcional, uma coisa de literatura. No final da aula fui falar com o professor, tive de fazer aquele feio papel da pessoa que fala das suas dificuldades. Falei que não ia às aulas porque trabalhava, etc, etc, perguntei como poderia me guiar. Ele lá me disse alguma coisa, mas sempre falou para mim como o professor que fala para o estudante baldas, que não mete os pés nas aulas porque não quer, etc.  Escolhi aquela cadeira de literatura entre muitas outras porque o assunto já me interessou muito. Falei ao professor disso e referi até alguns livros que tinha lido. Ele olhou para mim com um ar de gozo, como quem ouve um daqueles mentirosos que dizem que lerem isto e aquilo, ele a olhar para mim como se fosse impossível ter à frente um aluno que de facto leu um livro de algum dos vários autores de quem ele fala nas aulas. Eu pensei rapidamente que poderia começar a falar dos livros com tal propriedade que mostraria que os li. Mas lá vieram os pensamentos bloqueadores, repressivos, de que a minha cabeça anda vazia, minha memória está um lixo, minha capacidade de argumentação e exposição oral completamente medíocres. E há também a gaguez que vem com os nervos, a boca que seca até a minha língua não me deixar falar, um cenário merdoso que eu prefiro evitar. Os bloqueios sucedem-se e eu desisto. Saio daquela sala no papel de estudante baldas que, apesar de tudo, considero que não me assenta bem. Mas depois penso nos estudantes baldas que entraram comigo no curso. Eles já estão licenciados ao tempo, uns demoraram mais, outros menos, mas todos se safaram. No fundo eu estou abaixo desse tipo de estudante. Sou de um outro tipo, aquele que se arrasta sem fama nem glória, com vergonha, desleixo, mediocridade, pelos corredores da faculdade ano após ano para não resolver nada.

Estou novamente a escrever demais e por isso peço desculpa. Dormi pouco nas noites anteriores e há uns minutos tomei 2 mg de alprazolam e espero estar a dormir como um calhau dentro de pouco tempo. Ainda não estou a sentir grande coisa do efeito, ele que nunca mais foi o mesmo desde as primeiras vezes. Vou ver os 25 minutos de uma série brasileira de humor antiga pela qual tenho uma obsessão estranha (CENA de alienação em que há o IDIOTA. O IDIOTA vê uma série repetidamente e acha graça 5, 10, 15, 30 vezes da mesma piada). Depois, se ainda estiver acordado, vou pôr o ficheiro “som da chuva” de 4 horas no media player e ver se consigo relaxar para dormir. Quero muito dormir. Preciso.

Não vou rever o texto por que não tenho a concentração e força de vontade para esse trabalho de minúcia. Por isso, sinto muito pelas gralhas e excessos do texto. A quem chegou ao fim os meus parabéns. Doeu, mas enfim, já acabou.


Última edição por Vicent_Vega em Qua Abr 30 2014, 01:28, editado 1 vez(es)

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Re: Não existir

Mensagem por mrbombas em Seg Abr 28 2014, 22:48

Uma coisa te garanto, estes teus desabafos valem muito para muitos...
No livro que estou a preparar vão constar estes teus desabafos claro que sempre resguardando algumas partes mais pessoais e só após tua autorização...

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Re: Não existir

Mensagem por shearstress em Ter Abr 29 2014, 03:13

Meu deus , sem querer ofender , antes pelo contrário , um elogio..

Parece que estou a ler excertos de um livro do Irvine Welsh ( Trainspotting , Ecstasy , Porno ou Trash ) .. sei que podes pensar que nao tens força ( e acredito que nao a tenhas , com tanto trabalho ) para escrever , mas por favor escreve .. escreve porque está-se a perder um talento! Tu escreves assim sem rever nada , eu bem que posso rever 50 vezes que nunca chegarei a 1/10 da tua estrutura gramatical ...

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Qua Jun 04 2014, 10:42

Dias difíceis, noites horrendas

(Agradeço mais uma vez pelos comentários.)

Acabou-se o alprazolam. Para que minha mãe não o encontrasse, tive de fazer um malabarismo ridículo e acabei por deixar os últimos comprimidos da caixa irem parar ao lixo. Isto há pouco mais de uma semana. Tenho dormido sempre pouco. Levanto-me às 8h (menos domingo que é às 06.30) e saio sempre do restaurante depois das 22h. Aí, tomo banho, como rapidamente e sento-me com os cadernos abertos para estudar.

Os dias não contam com pausas, tirando o momento em que eu sento e almoço. Mesmo que não haja alguém para atender (coisa rara com os pinguços sempre a ir e vir), estou sempre de plantão – e há que carregar o stock, tirar a contagem da luz, ver a faturação, comprar pão, lavar copos, limpar balcão, ver o HCCP, etc, etc, etc.

Na hora de comer sinto nojo da comida. Há dias em que não como quase nada e sofro com fome. Então, um dia agarro-me a comer porcaria. Na minha folga foi fast-food, chocolates um em cima do outros, donuts engolidos quase sem mastigar que deixam-me a boca e o nariz cheios de farinha, gelados de fazer doer o céu da boca. Comer até parar, um pedaço de chocolate na mão a caminho da boca e eis que tudo para. Começo logo a sentir nojo de mim e paro, cuspo mesmo o pedaço de chocolate que ainda está na boca.

Nunca achei que tivesse um distúrbio alimentar. Na verdade, não acho que tenha. Este resumo não é o da maioria dos dias. Na maioria dos dias eu como de uma maneira mais ou menos normal.

Isto sempre acontece em fases específicas em que eu estou lixado da cabeça.

O alprazolam acabou e eu não tenho vontade de ir ao médico. Por outro lado queira ir. Estou às portas dos exames, com pouquíssimo tempo para estudar e com uma concentração que me desespera todos os dias. Queria ver se ele pode ajudar-me com isso, porque as vitaminas não fizeram notar diferença alguma. E há meses que eu já engulo todos os dias quatro comprimidos de fosfoglutina b6.

Choro todos os dias. Sinto desprezo por mim por isso. Pareço aquele miúdo frágil que tinha medo da escola. Choro e minha testa fica cheia de manchas vermelhas, meus olhos são olhos de louco.

Estou a estudar e esqueço-me, confundo, não relaciono, não fixo, nada. Não chego sequer perto de 50% da capacidade de concentração dos meus melhores tempos.

Estou sempre a dar ataques – mesmo que sejam para dentro –, choro, deito-me e encolho-me na cama em posição fetal, fechado no quarto. E aí sinto que sou mesmo a pessoa mais sozinha do mundo.

Encontrei um antigo amigo meu na rua há coisa de um mês. Ele falou para mim com uma formalidade que me irritou. Contou-me de uma amiga minha que emigrou, outra que também emigrou, um que arranjou um emprego no mc com um mestrado no bolso. E despachou-me para ir embora.
Com quantos amigos convivo eu hoje? Nenhum. Zero elevado ao infinito.

Fui à minha antiga psicóloga novamente. Um dinheiro sacrificado. Vou pagar as propinas bem fora de prazo, só para ir lá. E fiquei duas sessões inteiras no mais absoluto silêncio. No final da 1ª a psicóloga acabou a sessão dizendo-me que ali eu podia ficar em silêncio em paz, que não era obrigatório falar, etc, etc. O que ela não sabe – porque eu não lhe disse – é que quanto mais eu sinto-me desesperado por falar mais eu fecho-me em copas, fico em silêncio. Um silêncio contrariado.

Há tantas coisas que nunca lhe disse. Queria poder dizer-lhe, por exemplo, que passo os dias a pensar sobre suicídio. Mas na única vez que tentei, comecei a sentir uma falta de ar, um calor na têmporas, um desespero, que acabei por fugi de lá. Na sessão seguinte ela disse-me que achava que tinha tido um ataque de ansiedade e eu respondi “hum-hum”. E nesse dia falamos sobre sobre meu pai, sobre a minha rotina cansativa, sobre o meu pessimismo que ela tenta sempre combater desmontando os meus argumentos enquanto a minha mente sempre vai maquinando argumentos novos. Só não lhe falei do que mais queria falar.

Nunca lhe disse tantas outras coisas, talvez as coisas mais importantes. Umas não consigo dizer, outras nem saberia com que palavras dizer.

Muitas vezes saio de lá ainda mais frustrado, descrente na minha relação com as pessoas.

Imagino sempre que o suicídio é o meu destino. Há coisa de um ano tive uma infeção urinária e uma prostatite. É pouco comum na minha idade. Tinha uma bactéria na bexiga, uma coisa que se costuma apanhar em legumes mal lavados. Hoje sou eu mesmo que cuido da minha comida no restaurante. Fiquei sem comer legumes um tempo, hoje como, mas lavo-os eu. Contei à médica que passava muitas horas sem ir à casa de banho (plantão no balcão) e ela disse-me que, adicionado à bactéria, isso tinha causado a infecção na próstata.

Hoje, sei que, se eu não me matar até à meia idade, hei-de morrer de cancro. Penso sempre nisso.

Hoje é o meu dia de folga. Meu pai vai me dar mais folgas agora. Para eu fazer os exames. Queria explicar-lhe que a coisa é difícil para mim, principalmente quando começo a receber mais folgas justamente quando acabaram as aulas. Sem apontamentos como posso eu estudar? Mas para os meus pais a formula é simples: pegas nos apontamentos que tens dos anos passados, sentas, estudas, vais aos exames, passas. O que eles não sabem, ou não querem saber, é que eu este ano tenho cadeiras que nunca tive, que meus apontamentos estão desatualizados, que eu estudo pesquisando muito na internet, o que é mau estudo, não sabem que passo o tempo a tentar tirar as minhas dúvidas sozinho. Para os meus pais sempre foi assim. Não é problema deles, então é simples e fácil.

Se ao menos eu tivesse um cérebro eficaz. Mas eu só emburreço com o passar do tempo.

Eu não estou bom hoje, estou a escrever sem fazer grande sentido, só disperso. Nem consigo escrever um texteco destes como é que eu vou ter sucesso em exames? A vida parece-me horrível.

Eu sou como a garça triste
Que mora à beira do rio,
As orvalhadas da noite
Me fazem tremer de frio.

Me fazem tremer de frio
Como os juncos da lagoa;
Feliz da araponga errante
Que é livre, que livre voa

Isto é Casto Alves. Eu já nem leio poesia.  Nem porra nenhuma. Tenho 26 anos e não sou nada. Não vou formar-me outra vez, e isso não é apenas ridículo e irritante, como é triste de doer.

Há mil e um problemas que rodam sem parar na minha cabeça. Tenho dívidas que meu pai contraiu em meu nome, tenho o verão no restaurante a chegar onde vou ter de me esfolar todo. Os exames aí e eu quase sem apontamentos, sem conseguir falar com as pessoas, sem ir ao médico, os médicos que talvez nem possam me ajudar, eu sentado a tentar estudar, as cabeçadas contra os apontamentos, eu sem alprazolam a olhar para o tecto do quarto a meio da noite, eu com sorte ainda a adormecer enfim já quase a amanhecer, o despertador a tocar e eu não o oiço, eu a sonhar dias a fio com a minha ex-amiga que emigrou para Inglaterra, eu na psicóloga em silêncio, eu aqui nesta sala, sozinho como sempre fui e sou mais do que nunca, eu que não consigo mais estudar, eu que não sei o que fazer, eu que não aguento mais esta agonia e sensação de horror que são a agonia e horror de todo santo dia, eu que acho que não vale a pena viver assim, eu que digo a mim mesmo “não sou um pedinte da vida” e que me olho ao espelho e repito como na cena de um filme que vi há anos, “I'm going to kill myself tomorrow",  mas que ainda assim só me arrasto em dias de vazio e solidão, coleccionando frustrações, sem já saber há muito, em primeira mão, o que é ter um momento de pura felicidade.


Última edição por Vicent_Vega em Qua Jun 04 2014, 14:39, editado 2 vez(es)

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Qua Jun 04 2014, 14:06

Não consegues reter o que lês porque estás deprimido, experimenta comer alimentos ricos em ómega 3 para melhorares ( pasta de sardinha, nozes, óleo de linhaça...), e depois esforça-te por fazeres as disciplinas que te faltam porque parece-me a forma mais rápida de te livrares de uma vida que não te faz feliz.
Tens também de beber muita água e ir à casa de banho com mais frequência. Como eu não fazia nenhuma dessas duas coisas quando era adolescente tenho uma cistite crónica há 21 anos e levanto-me 7/8 vezes durante a noite para urinar. Não calculas o desagradável que é, principalmente no inverno quando está frio, ter de sair da cama quentinha.
Não me surpreende que tenhas dificuldade em relacionar-te com as outras pessoas, se até hoje o teu contacto com os outros foi maioritariamente negativo. Tratam-te mal e tu isolas-te para não seres magoado de novo. Eu sou exactamente como tu nesse aspecto, mas como sempre achei que a solução passava por encontrar um companheiro para a vida, nunca deixei de lutar. Tenho um relacionamento há 10 anos, sou casada há 5, tenho o meu marido e os meus sogros e não sinto falta de mais ninguém.
Não fazes ideias as voltas que a vida dá e de um momento para o outro pode dar tudo uma volta de 180 graus. Peço-te que não desistas e que faças as disciplinas que te faltam, nem que seja uma de cada vez.

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Re: Não existir

Mensagem por Srhipocondria em Qua Jun 04 2014, 16:04

Escreves muito bem acerca dos episódios absurdos da vida. Esse sofrimento e essa dor não te deixam libertar das amarras e das algemas invisíveis da vida. E se deixasses esse trabalho, se batesses com a porta e enfrentasses os teus pais, dizendo-lhes o que verdadeiramente te vai na alma? Era uma maneira de te tentares desprender dessa absurdidade alienante, quebrares a casca da besta que te constringe e procurares respirar um pouco melhor.

Nem que seja só umas férias forçadas para conseguires acabar o curso. E depois de acabares 'fugias' e construías o teu próprio futuro. E punhas em prática esse talento natural para a escrita, transpunhas para o papel esse sofrimento, como uma catarse da alma atormentada. Não vale a pena desistir, eu também penso em desistir muitas vezes. Mas depois penso, e, fico na esperança, de que as coisas aos pouquinhos melhorem. Há que rir e resistir. Se te conseguisses libertar desse trabalho era meio caminho andado para começares a ter mais contacto com pessoas de verdadeiro interesse e para conseguires colocar a vida em perspectiva.

Eu estou como tu, num limbo, num mestrado que não estou a conseguir finalizar. Mas no meu caso trata-se de problemas de saúde e de ansiedades e pânicos sem razão tangível que me deixam num estado de inércia e catatonia, sem força para fazer o que quer que seja. Durmo demais, mas no teu caso o problema é que dormes de menos, precisavas de tempo para deixar o cérebro descansar e recuperar do cansaço acumulado. E isso só vais conseguir afastando-te dessa loucura de trabalho.

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Re: Não existir

Mensagem por TGoD em Qua Jun 04 2014, 18:41

Este Vicent_Vega escreve coisas mesmo sinistras.
Penso que todos aqui no forum se identificam mais ou menos com as coisas que tu escreves, além de saberes escrever bem.

Já que tens dificuldade em te "abrir" à psicologa, podia-lhe mostrar o que neste forum escreveste para ela lêr. Sem medos, é suposto ela ajudar-te.

Acho que primeiramente tens que gostar de ti e deixar essa sensação negativa. Se tu próprio não te valorizas, ninguém te vai valorizar. Não ponhas a hipótese de suicídio, a vida é demasiado valiosa para isso...

Uma das coisas que acho que devias considerar era arranjar outro emprego, até mesmo quem seja "saudável" psicologicamente dava em doido num emprego como o que tu referes.

Tenta ter uma vida mais calma e sê minimamente feliz com isso, e verás que vais ter a cabeça muito mais fresca para o estudo.

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Qua Jun 04 2014, 20:40

Srhipocondria escreveu: E se deixasses esse trabalho, se batesses com a porta e enfrentasses os teus pais, dizendo-lhes o que verdadeiramente te vai na alma?

Que espécie de pais permitem que o filho tenha um trabalho como o que ele descreve e ainda por cima sem remuneração ? Parece-me óbvio que não lhe têm respeito nenhum nem qualquer preocupação pelo seu bem-estar. Se ele fizer o que dizes o mais provável é ficarem indignados com a atitude dele e até exercerem algum tipo de represália como, por exemplo, deixarem de o ajudar financeiramente. Acho que és bem-intencionada, mas simplesmente isso não resulta.
Sugiro que ele acabe o curso e arranje um emprego totalmente diferente, de preferência, onde não tenha de aturar público.

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Re: Não existir

Mensagem por Srhipocondria em Qua Jun 04 2014, 20:59

Mas isso é compactuar com a situação por medo. É legitimar o comportamento esclavagista deles. Pode ser que com as palavras certas eles sejam capazes de perceber os erros. E que lhe diminuam pelo menos a carga de trabalho.

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Qui Jun 05 2014, 09:01

Pelo que percebi, já lhe vão diminuir a carga de trabalho para ele poder estudar. Menos mal.
Perante situações destas faz-se o que se pode para conseguir sobreviver.

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Re: Não existir

Mensagem por Buk em Sex Jun 06 2014, 07:35

Impressionante a semelhança que vejo entre nós dois. Parece eu a escrever. Tenho essa mesma sensação de isolamento total e de desespero impotente. Também nem leio mais poesia. Apenas uns livros em prosa. Em termos práticos, a solução é conseguir um outro emprego e cair fora mesmo. Porém, como realizar tal coisa? Sempre me faço a mesma pergunta. Outra coisa curiosa é o fato de eu olhar para o mundo real e não conseguir vislumbrar um ponto de fuga. Boa sorte. Abraço.

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Dom Jun 08 2014, 17:39

Ao reler o que escreveste lembrei-me de um livro chamado Uma Conspiração de Estupidos de John Kennedy Toole. Este autor suicidou-se e, mais tarde, a mãe conseguiu que o livro fosse publicado. Ganhou um prémio Pulitzer e foi dos livros mais cómicos que li até hoje.
Não desistas dos teus sonhos.

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Re: Não existir

Mensagem por CarlosAlb em Qui Jun 19 2014, 11:06

Revejo-me tanto em algumas partes do teu texto...

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Ter Jun 24 2014, 23:27

Tive um exame hoje (terça-feira), das 9h às 11h.  Uma merda.
Na semana passada também tive um exame à terça. Desisti desse. Estudei na quarta e na quinta, na sexta levantei-me às 06:25 para ir de autocarro até à terra onde trabalho no restaurante/bar/taberna. Cheguei lá pela 08:30 da manhã. Trabalhei até pouco depois das 22 h. Chego a casa, tomo banho, como, sento a estudar. Fui dormir tarde.
No sábado levanto pouco antes das 8h para abrir a porta do restaurante às 8h. Saio de lá quase às 21 horas. Tomo banho, como, sento a estudar. Estudo até à uma e tal da manhã. Domingo levanto às 7 e tal da manhã, dia de cansaço extra. Saio de lá por volta das 21 horas. Tomo banho, como, sento a estudar e fico a estudar até ás 3 e pouco da manhã. Na 2ª levanto às 8 h, trabalho até ás 15h. Viajo até a cidade onde estudo de carro. Chego lá à 16h e tal. Tomo banho, como uma banana, uma nectarina e um pão e sento-me a estudar. Até às duas e tal da manhã. Hoje, terça, levantei-me às oito e dez da manhã, arranjo-me rápido, apanho o autocarro e chego à universidade pouco antes da 9h, para às 9h começar a fazer o exame.

Hoje dormi um pouco à tarde, nem precisei de alprazolam. Agora à noite simplesmente sei que vou precisar.

Fui informado de que vou de novo lá para o restaurante na quinta de manhã. Levanto às 6 e tal. Vou trabalhar quinta, sexta, sábado, fucking domingo e segunda até às 15 horas. Para fazer outro exame na terça às 9horas. Mas C-O-M-O? To tão irritado e nervoso que só consigo chorar como uma criancinha. Um calor pela cabeça, e começa a vir aquele desespero que com tanto esforço e disciplina tenho evitado.
Depois ainda tenho exame na terça dia 1, dpis tenho num sábado dia 5 e logo depois um outro dificílimo no terça seguinte (dia Cool, 9h da manha, e logo outro na quarta dia 9, às 9h também.

Já desisti de fazer esse já na próxima terça: tenho hoje (dpis de ter feito um exame das 9 às 11 e a cair de sono) e amanha para estudar e segunda a partir das 16 e tal. No outros dias estudo um pouco depois de 12, 13, 14 horas de trabalho sempre em pé, a subir e descer escadas às vezes.

O meu pai deu-me mais tempo numa primeira semana, mas agora já cortou dois dias. Ou seja, grande merda, foda-se, merda, merda, merda.
Assim, simplesmente não dá. COMO POSSO EU FAZER QUALQUER MERDA QUE SEJA?!?!?!?!?!?!?!?!?!?!!? FODA-SE

Não sei, sinceramente como vai ser quando não me licenciar mais uma vez.
Tenho ensaiado meter um saco plástico na cabeça, habituar-me a não sentir agonia. Agarro nos alprazolam, engulo uma porrada deles, quando começar a fica altamente abananado meto um saco plástico na cabeça, do um nó no pescoço e adormeço para o lado. Aí morro sufocado enquanto durmo como a perfeita bela adormecida. Às vezes sinto-me mais próximo de fazer isso. Quando, por exemplo, sinto essa raiva e desespero dpis de ser informado que me iam fuder a vida toda de modo a eu ter mínimas possibilidades de sequer fazer uma merda de uma cadeira que seja.
To angustiado, irritado, com ódio, horror, nojo.
Se as coisas correrem mal na faculdade vou logo a seguir jogar no euromilhões. Depois vou até à igreja na qual nunca entro a não ser em casamentos e baptizados. Vou dizer a Deus, Olhe, se os números em que joguei não me deram algum prémio que me salve deste momento, vou matar-me. E Deus não vai dizer nada, e poderoso como ele será se existir – coisa que eu não nego, nem acredito tanto assim – com certeza se borrifará para ameaças chantagistas suicidas de um zé-ninguém, um fudido medíocre como este trapo humano aqui, esta escória incapaz que eu sou. Esse sou eu mesmo, um medíocre, fraco, incapaz de grandes sacrifícios, de transcender as suas dificuldades que só tendem a aumentar, incapaz de uma virtuosa superação. E digo a mim mesmo “Não sou um pedinte da vida”, e digo como no filme do wes anderson “i am going to kill myself tomorrow”. Suicídio não é solução? É, claro que é. Só não é a melhor, mas quem sabe a mais fácil a determinada altura. É a morte, kaputt, c’s finit, the grand finale, the fucking end. Quando penso nisso, lembro da minha sobrinha e afilhada, de um aninho e pouco, penso como eu a amo, penso naquela inocência mágica e aquele encanto infinito que nos derrete todinhos, e penso que talvez eu não me queria matar. Mas também sei que ela, na verdade, nem se lembrará mais de mim.

Agora tive uma sucessão de cabeçadas na mesa, dei alguns murros na minha própria cara, tipo a cena de o clube da luta, só que mais devagar, porque eu sou um covarde, claro. Mas ainda tenho a cara vermelha. Gostaria muito de me ter desfeito em sangue, um murro bem no nariz para expelir o sangue, esse sangue ruim, de má raça.

Como é que eu agora, no pouquíssimo tempo que me resta posso enfiar kg de matéria numa cabeça já tão cheia de entulho?

Alguém sabe de como uma pessoa pode cortar nas horas de dormir de um modo eficaz, retirando mesmo o sono e a falta de concentração? Queria ir ao médico porque queria ver se ele me ajudava com isso da concentração, mas não tenho tempo, tenho de ir estudar. Não tenho tempo. Aliás tenho de ir estudar, e tenho de dormir, vou sacar o alprazolam. Amanhã ao acordar meto um sargenor duplo logo a seguir ao pequeno almoço e lanço-me aos estudos. Não vai valer de nada, é o tal do fado, do destino que me marca, o de ser um perdedor, um fracassado, um medíocre. Não tenho nada mais a acrescentar. Só queria deixar escrito, como este mundo e esta vida são mesmo uma merda sórdida de um coleccionar de frustrações. Bem-ajam os suicidas. Queria conseguir um pouco de coragem, umas gotinhas só.
Já tomei o alprazolam para adormecer agora e estou a escrever já sem me concentrar muito bem as teclas e sem conseguir ler as frases como deve ser. Peço desculpa a todos. Sinceramente eu peço.
Não queria matar-me antes de conseguir escrever a história na qual penso há tanto tempo. Escrevi alguns textos, mas faltava tempo e o empurrão definitivo. Queria mesmo escrevê-la. Mas tudo funciona para que eu não o consiga. O Universo conspira contra mim.
Vou dormir. Amanhã vou estudar e penetrar toda aquela informação, calhamaços de páginas, vou penetrar tudo na minha cabeça. Vocês vão ver.

To bem abananado agora. Preciso mesmo de dormir. Amanha é outro dia, um dia em que as coisas vão definitivamente começar a iluminar-se, os passarinhos cantarão e eu vou ser, vejam só q ironia das coisa, vou ser feliz. F-E-L-I-Z. Expressão que dá gosto de fel na boca.

Já estou a ocupar muito espaço, mas isto vai acabar, aqui, agora, nesse preciso instante.

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Re: Não existir

Mensagem por Srhipocondria em Qua Jun 25 2014, 23:50

Foge man, foge desse massacre! Diz que precisas estudar e abandona essa vida maluca. Não desistas sem antes bateres com a porta e procurares os caminhos que precisas trilhar. Abandona esse emprego e, se o dinheiro fizer mesmo muita falta, procura um part-time mais perto de casa e menos agressivo. Concentra-te em ti, precisas de tempo e espaço para ti próprio.

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Seg Jun 30 2014, 12:32

Vicent_Vega escreveu:Tive um exame hoje (terça-feira), das 9h às 11h.  Uma merda.
Na semana passada também tive um exame à terça. Desisti desse. Estudei na quarta e na quinta, na sexta levantei-me às 06:25 para ir de autocarro até à terra onde trabalho no restaurante/bar/taberna.
...
Já desisti de fazer esse já na próxima terça: tenho hoje (dpis de ter feito um exame das 9 às 11 e a cair de sono) e amanha para estudar e segunda a partir das 16 e tal. No outros dias estudo um pouco depois de 12, 13, 14 horas de trabalho sempre em pé, a subir e descer escadas às vezes.

Tu lês o que nós escrevemos ? As pessoas como tu, que não são ouvidas, também têm dificuldade em ouvir os outros. Por favor, faz um esforço para ler as nossas respostas e depois decides o que fazer. A última decisão é sempre tua.

O que eu te quero dizer essencialmente é que estudar para os exames não basta. Estás deprimido e precisas de coisas que as outras pessoas não precisam. Se trabalhas num restaurante deves ter patê de sardinha à mão, aproveita e ingere bastante porque tem proteínas e ómega 3 que ajuda muito o cérebro e bebe muita água, por exemplo, um copo 30 minutos antes de cada refeição. O cérebro precisa de ambas as coisas para funcionar corretamente.

Outra coisa que eu faria no teu lugar era ingerir papas de aveia integral flocos finos ao pequeno almoço nos dias de exame porque saciam durante muito tempo e evitam as quebras de energia. Não sei se já provaste, não é mau de todo, não é muito caro ( 1 € e qualquer coisa um pacote de 400 g ) e é fácil de preparar ( 5 minutos no máximo ).

Fartas-te de subir e descer escadas no trabalho ? Compreendo que é desagradável, eu também não ia achar piada, mas vê pela positiva, todo esse exercício oxigena o teu cérebro. Pensa que cada alimento, cada copo de água que ingeres, cada vez que fazes exercício é mais provável que tenhas bons resultados nos exames.

Lunebleue

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Re: Não existir

Mensagem por Buk em Ter Jul 01 2014, 23:38

Você já pensou em simplesmente pesquisar por um emprego "normal" com "horas normais"? Pesquisar também por algum local de estadia, barato? Você poderia reduzir seu horário de trabalho simplesmente trabalhando em outro lugar e ignorar as animosidades familiares simplesmente vivendo em outro lugar, de forma independente (e barata, sim). Teus pais, com certeza, ficariam no mínimo assustados com a súbita mudança e independência. Não sei como funciona o direito trabalhista em Portugal, mas teu horário de trabalho é grande o suficiente para ser visto como um horário ilegal, pela lei, se é que me entende. Se é um trabalho informal e você não quer processar teus pais, sim, claro, entende-se, mas se você está trabalhando acima do horário previsto pela lei, ultrapassando a margem da legalidade e atingindo o porto da ilegalidade, então isso poderia ser ao menos um "argumento" a ser usado contra seus pais, em caso de altercações acaloradas.

Eu também estou no mesmo dilema do trabalho, procurando um e querendo viver de forma independente. Estou esperando por uma prova do Estado para começar a trabalhar na minha área como alguém que espera aquele próximo estranho e efetivo passo em direção a uma vida independente (da família) e totalmente diferente.

Uma pequena mudança constante no dia-dia já é o suficiente para criar uma mudança significativa no plano total da nossa vida, se tal mudança é mantida. Estou tentando fazer isso.

Continue a escrever, força e sorte,
Abraço.

Buk

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Re: Não existir

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