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Não existir

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Ter Jul 22 2014, 01:56

Feio, feio, feio, isto está feio.
Ultimamente anda assim:
- Não posso andar de carro que fico logo mal-disposto. Uns 10 minutos de carro e já fico indisposto. Abro a janela e apanho vento na cara a ver se passa, mas só passa quando saio do carro. E não era assim, podia andar horas de carro que ficava bem. Só quando eu era criança é que ficava dessa maneira, vomitava nos carros todos. Uma vez até vomitei no carro do chefe do meu pai, o que foi bem chato.
- Às vezes o meu coração acelera por uns segundos, 4 ou 5, e depois, quando volta ao normal, um frio desagradável percorre-me da cabeça aos pés. Alguém sabe que porra pode ser isto?
- Dores de cabeça, enxaquecas monumentais de vez em quando. Uma por semana pelo menos. Tomo paracetamol 1000, mas não resolve. Diminui um pouco a dor e só por 1, 2 horas, depois volta ao mesmo, muito antes de um poder tomar outro paracetamol. Um dia tinha muita dor e subi as escadas para casa, já vinha a gatinhar para o último andar e vomitei-me todo. Tinha muita dor de cabeça, queri arrancá-la.
- A minha concentração está no auge da m*rda (devia moderar os palavrões, porque as pessoas sensíveis podem dar ataques, mas phoda-se. Aliás a esse respeio aconselho o vídeo do Governo Sombra sobre palavrões). Para além de não conseguir ler uma página seguida, de esquecer, não decorar conceitos, não relacionar, agora na vida diária a coisa também piorou. As pessoas pedem-me café curto e eu levo cheio, pedem ice tea de pêssego e eu levo de limão, querem àgua fresca e eu levo natural. O pior é quando eu troco nos pratos e não nas bebidas... A minha mãe pede-me para eu ligar a máquina de lavar antes de ir dormir e eu esqueço. Pedem-me para fazer uma lista de coisas e eu só faço uma delas, esqueço o resto. Aí vem a conversa do “velho somos nós, tu és novo, lembra-te”. Tento puxar pela cabeça, mas parece que tudo escapa ao meu controlo.
- Durmo mal, falta o ar, tenho de pensar “inspira/expira” quando ninguém precisa pensar em respirar, respira-se e pronto.
- To com péssima cara, cara de que passaram um camião por cima de mim. As pessoas olham-me de lado, ou eu posso estar a ser paranóico, o que também não é uma possibilidade de se excluir.
- To morto de cansaço, vou fracassar na faculdade mais uma vez. Vou fazer 0 cadeiras. Tenho chumbado com notas que nunca tive. Disse a mim mesmo que se chegasse a este ponto matava-me. Mas ainda não me matei. Em vez de matar-me estou aqui a escrever e não sei se é desabafo, se é exercício de auto-comiseração, se é gritar para o ar, se é apenas o óbvio – solidão.
Tinha até mais para escrever, mas estou cansado. E da maneira que ocupo menos espaço.

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Alento

Mensagem por sereia_encantada em Ter Jul 22 2014, 03:00

Vicent_Vega escreveu:Feio, feio, feio, isto está feio.
Ultimamente anda assim:
- Não posso andar de carro que fico logo mal-disposto. Uns 10 minutos de carro e já fico indisposto. Abro a janela e apanho vento na cara a ver se passa, mas só passa quando saio do carro. E não era assim, podia andar horas de carro que ficava bem. Só quando eu era criança é que ficava dessa maneira, vomitava nos carros todos. Uma vez até vomitei no carro do chefe do meu pai, o que foi bem chato.
- Às vezes o meu coração acelera por uns segundos, 4 ou 5, e depois, quando volta ao normal, um frio desagradável percorre-me da cabeça aos pés. Alguém sabe que porra pode ser isto?
- Dores de cabeça, enxaquecas monumentais de vez em quando. Uma por semana pelo menos. Tomo paracetamol 1000, mas não resolve. Diminui um pouco a dor e só por 1, 2 horas, depois volta ao mesmo, muito antes de um poder tomar outro paracetamol.  Um dia tinha muita dor e subi as escadas para casa, já vinha a gatinhar para o último andar e vomitei-me todo. Tinha muita dor de cabeça, queri arrancá-la.
- A minha concentração está no auge da m*rda (devia moderar os palavrões, porque as pessoas sensíveis podem dar ataques, mas phoda-se. Aliás a esse respeio aconselho o vídeo do Governo Sombra sobre palavrões). Para além de não conseguir ler uma página seguida, de esquecer, não decorar conceitos, não relacionar, agora na vida diária a coisa também piorou. As pessoas pedem-me café curto e eu levo cheio, pedem ice tea de pêssego e eu levo de limão, querem àgua fresca e eu levo natural. O pior é quando eu troco nos pratos e não nas bebidas... A minha mãe pede-me para eu ligar a máquina de lavar antes de ir dormir e eu esqueço. Pedem-me para fazer uma lista de coisas e eu só faço uma delas, esqueço o resto. Aí vem a conversa do “velho somos nós, tu és novo, lembra-te”. Tento puxar pela cabeça, mas parece que tudo escapa ao meu controlo.
- Durmo mal, falta o ar, tenho de pensar “inspira/expira” quando ninguém precisa pensar em respirar, respira-se e pronto.
- To com péssima cara, cara de que passaram um camião por cima de mim. As pessoas olham-me de lado, ou eu posso estar a ser paranóico, o que também não é uma possibilidade de se excluir.
- To morto de cansaço, vou fracassar na faculdade mais uma vez. Vou fazer 0 cadeiras. Tenho chumbado com notas que nunca tive. Disse a mim mesmo que se chegasse a este ponto matava-me. Mas ainda não me matei. Em vez de matar-me estou aqui a escrever e não sei se é desabafo, se é exercício de auto-comiseração, se é gritar para o ar, se é apenas o óbvio – solidão.
Tinha até mais para escrever, mas estou cansado. E da maneira que ocupo menos espaço.

Vicent_Vega,

Se até uma simples florzinha encontra forças para florir quanto mais nós não a havemos de encontrar?
Lembre-se sempre disso, pode ser?
Um dia de cada vez. A cada dia melhor. Estamos aqui para ajudar.
Este poema é da minha autoria e é para si. Não está só, certo? Ainda existem anjos na terra.

Que bom que é sentir que a viagem não chegou ao fim...
Que bom que é sentir o alento de mentes brilhantes
Que eternizam instantes e perpetuam lembranças
De um sonho vivido acordada.
Que bom que é sentir que na estrada da vida
Muito há a trilhar e a desbravar
Para acordar a bela adormecida
da nossa infância esquecida.
Que bom que é ter vontade
De ser criança outra vez
De voltar à idade dos porquês
E recuperar a inocência perdida.
Que bom que é vislumbrar no horizonte
O Edelweiss da montanha,
Símbolo de esperança,
De fragilidade e perseverança.
Que bom que é perceber
Que não vamos perecer,
Mesmo que o Inverno seja duro e longo,
Mesmo que o deserto seja inóspito,
Se uma simples florzinha encontra forças para desabrochar
Quanto mais nós não havemos de a encontrar.
Resta-nos acreditar, de olhos a brilhar, que sonhar
É viver e que não chegar ao destino da viagem
Pode não ser uma miragem,
Mas um ponto de viragem
Para outros destinos encontrar...
Nesta viagem só comprei bilhete de ida,
Não querendo outra saída
Senão o ponto de retorno,
Fonte de mil imagens, melodias e viagens
Reais ou imaginárias
Que em sintonia me deram energia
Para "acordar viva depois de um qualquer pesadelo"
E perceber o quão maravilhosa é a Primavera da vida após o degelo.

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Re: Não existir

Mensagem por mrbombas em Ter Jul 22 2014, 09:42

mas estás a ser acompanhado por alguma especialidade? estás a acumular sintomas e patologias para criar uma bomba relógio...

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Re: Não existir

Mensagem por Srhipocondria em Ter Jul 22 2014, 23:58

como vai a tua relação com o alprazolam? Pode vir daí a falta de memória e a dor de cabeça.

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Qua Jul 23 2014, 01:01

Só fui a um médico de clínica geral e já não vou lá desde março, talvez. Não tenho tempo e na verdade também porque custa-me a falar com médicos - ainda mais do que com que com as pessoas comuns.
Por não lá ir há muito tempo, já não tenho alprazolam que, aliás, só tomava em SOS. Acabou há poucos dias. Havia semanas em que tomava 4 dias, ou até todos como já aconteceu, mas outras em que lá conseguia tomar só num dia da semana.
E continuei a tomar as vitaminas sargenor e fosfoglutina b6, mas sinceramente...
Andava a pensar em ir ao médico outra vez - na verdade já penso nisso há dois meses, mas só penso - só que depois começo a imaginar que vai acontecer o costume, que é eu chegar lá e não dizer nem 40% do que tinha para dizer, e o que digo explico mal, enfim...

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Não adiar mais o problema para não se tornar numa bola de neve.

Mensagem por sereia_encantada em Qua Jul 23 2014, 01:11

Boa noite,

Tens de agir rápido. Para não ires ao "fundo do poço".
Em dou-me muito bem com o Ânimo 5HTP+Bacopa, da BioCeutica e com o
V-C 15 Forte Neo, do Dr. Reckeweg (24 ampolas bebíveis). Este último é um produto homeopático. A minha médica chama-lhe o "ressuscita mortos". Encontras nas ervanárias e nos Celeiros.

Mas nada substitui a ida ao médico. Já pensaste em fazer psicoterapia?
Antes de ires ao médico, se tens receio de mencionar os sintomas, faz uma lista. Eu própria também o faço.

As melhoras e age rápido.

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Re: Não existir

Mensagem por mamã_gu em Sex Jul 25 2014, 09:42

ACORDA
MUDA
ACORDA PA VIDA RAPAZ !!!!
ACORDA CAR*** !!!

Pah desculpa a exaltação mas já nao aguento mais ler os teus relatos e ficar calada, ando a seguir te á meses sempre em silencio, pk ja estive como tu ( sim no meu caso fui inclusivamente a obrigada a deixar os estudos aos 16 o que me deixa com a linda escolaridade de 9ªano) e tb tenho negocios com familiares e tambem tenho dividas,dividas com 5 zeros e tenho praticamente a tua idade)

Rapaz tens de dar o salto, e não não é da ponte, claro

Não me vou por aqui com objectivos irrealistas , porque "nos" sabemos muito bem que sair de casa e strat fresh no teu caso não é propriamente só uma questão de vontade, ou pelo menos eu consigo entender isso, pk mm que arranjes algum trabalhito da maneira que isto anda 600€ já são bons ordenados e isso não da pa NADA !!!

pAH mas tens mesmo de sair desse buraco

1º LUTA e deixa de enfiar a cabeça no buraco (depressão) e sentir pena de ti proprio! NÃO TE VAI SERVIR DE NADA , até podes encontrar gente solidaria com o teu sentimento mas não mais que isso, e so vai fazer com que te sintas ainda pior...Luta afincadamente pa sair da depressão isso tem que ser JÁ!!! Se não consegues sozinho vai psicologo/psiquiatra/terapeuta/o que for, e se tiveres que tomar algo mais que um s.o.s. toma, NÃO É SINAL DE FRAQUEZA TER UMA DEPRESSÃO, não tenhas vergonha de assumir, eu sei que já andas a tomar umas ajudas, mas não estás a ser seguido convenientemente, se os medicos de familia soubessem tudo ninguem, tirava especialidades

2º ACEITA ; sim aceita, infelizmente uns de nós nasceram para ser Cristianos Ronaldos e outros sem-abrigo, e PONTO, não entendas isto como um comentario pessimista , tenta perceber que o que eu te quero dizer é que existe e existirá sempre, gente que pouco ou nada tem de fazer para atingir os seus objectivos e outro têm de dar o c* e 10 tostões pa chegar a algum lado, FAZ PARTE DA VIDA,se é injusto? É, mas não vai deixar de acontecer.
Por isso tens 2 hipoteses, ou te sentas e dizes “sou um infeliz com poucas possibilidades”, ou dizes “ok, isto vai dar trabalho mas é possivel”, va lá se razoavel, qual te parece melhor?
ok é uma treta tares a levar com o restaurante, mas francamente tens neste momento exacto uma hipotese melhor?  Usa esse facto a teu favor, por exemplo os teus pais não te  vão despedir de certeza ( pk precisam de ti até já la tens o nome dentro) Noutro trabalho kk estás sempre sujeito a ficares sem nada de um dia para o outro, e duvido que encontres um patrão solidario que não se importe (realmente) que não apareças de manhã para fazer exames. Os teus pais torcem a cara mas não mais que isso. Eu tambem não gosto que me façam caras, ou sentir que me estão a fazer favores, mas sabes que mais , whatever, tu tens que lutar por ti, com caras ou sem caras é o teu futuro que está em jogo

3º PLANEIA E CUMPRE, mas não vale a pena fazeres planos irrealistas de terminares uma licenciatura de 4 anos em 6 meses, faz um plano VIAVEL  (quando digo viavel quero dizer realmente exequivel, se te pões com objctivos mto puxados só vai servir para que facilemente falhes algum e te desmotive na restante viagem) Não consegues fazer 6 cadeira num semestre faz 3, é melhor que 0, andas como louco a tentar tudo ao mesmo tempo acabas por nao conseguir nenhuma, pa foca te numa ou 2, não é por mais 1 ano ou 2 que vais perder o barco

4º talvez o mais importante DIZ NÃO, não posso trabalhar 14/16/18hrs, posso dar 8/9hrs do meu dia,e quero 1 folga semanal,  se te imposeres asserio vais ver que acabam por ceder, porque se sentes que não te podes impor porque até precisas deles, lembra te que eles tambem precisam de ti! Negoceia com a necessidade deles, comigo foi a solução, aprendi a jogar a meu favor, pode parecer mau, mas se nos querem sugar o sangue temos que nos defender, comigo foi tipo: não querem o que posso dar? Ok ,fecho a empresa, eu fico com dividas, mas voces ficam sem trabalho (com a idd k tem não arranjam nada) , ficam sem hipotese de continuar o negocio (têm o nome queimado), vão aceitar ou não? Foi limpinho! E nada de pesos na consciencia pk são familia e tal, pois, se são familia para te explorar tu não tens que sentir remorsos de te impores. Não os estás a abandonar, estás a tentar SOBREVIVER!

Desculpa se estou a ser bruta no meu comentario, mas quando estive assim como tu ( e sim pensei muitas vezes em suicidio e cheguei inclusivamente a tentar 1 x ) foi com uma conversa assim com o meu psiquiatra que se fez o click.  Até sai de la a pensar “mas este cab*** ta aqui pa me ajudar ou pa me dar na cabeça ’” Razz 

A CHAVE DE TUDO ESTÁ NA TUA MÃO
MUDA AS REGRAS DO JOGO!
TU ÉS CAPAZ
TU ÉS CAPAZ
TU ÉS CAPAZ

Mais uma vez peço desculpa pela forma como falei, mas custa me ver o sofrimento em que andas e ver que não estas a conseguir sair daí, estou apenas a tentar dar-te algumas ideias sobre como podes contornar o sistema em que vives
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Re: Não existir

Mensagem por moliv em Qua Ago 06 2014, 10:19

Olá Vincent_Vega.

Não tenho muito a dizer-te, além de poder dizer-te que como escritor, serias óptimo.
Tens sensibilidade, carácter e força, apesar de neste momento não a veres em ti.

Sei como é a depressão, os transtornos pessoais e sociais que tem, e identifico-me perfeitamente com tudo o que dizes.
Querer morrer em determinada fase da depressão é normal, visto termos umas palas ao lado dos nossos olhos nessas alturas, e só vemos coisas pretas, negras, más, problemas. Também já tive a minha dose de pensamentos assim.
Mas acho, não, tenho certeza, que és mais forte que esses pensamentos e que tudo o que a tua cabeça cria à volta da doença.

Tens 26 anos, foi o que entendi?! És demasiado novo para desperdiçar talento, energia e VIDA em merdas negativas e pesadas como o inferno.
Se te fores livrando aos poucos do que te faz mal, por dentro, bem no fundo de ti, acho que poderás, aliás, sei que poderás ter uma vida minimamente normal. Tal como eu tenho tido, eu e outras pessoas deprimidas, ansiosas, no fundo doentes e as vítimas da nova escravidão.

Eu tive de sair do meu emprego de 7 anos, saí sem nada, sem dinheiro nenhum. Não conseguia viver mais naquele escritório, fazer horas a mais todos os dias sem ser paga, odiar a minha chefe mas ter de fazer o sorriso amarelo sempre que ela passava. Por isso entendo-te. Entendo os teus maus dias, os dias que nem apetece levantar da cama nem para comer.

Mas sabes que mais? Há uma vida toda além destas pequenas misérias. Uma VIDA muito mais importante e muito mais tua do que aquilo que possas pensar. Apenas acredita em ti, e que o teu nascimento merece ser vivido todos os dias, celebrado, mas celebrado por ti e apenas por ti, os outros que se fodam.

Eu também adoro escrever, por exemplo, para tentar fazer algo de útil com esta capacidade inscrevi-me no campeonato nacional de escrita criativa. Tentei fazer algo por mim!

Tenta um pouco todos os dias, chegará a uma altura em que VIVER é natural, e os teus pensamentos menos bons desaparecerão - ou pelo menos, aparecerão com menos força.

Espero que com estas palavras todas tenha trazido algum sentido ou alguma esperança à tua existência - mas tudo depende da tua força pessoal, e do que fazes para a encontrar.
Eu encontrei-a em mim mesma e nos meus erros passados.

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Re: Não existir

Mensagem por mrbombas em Sex Ago 08 2014, 10:54

só gostava que fossem mais moderados na linguagem, palavrões podem ser substituídos por ** que as pessoas percebem mas não estão explícitos...

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Re: Não existir

Mensagem por Ana. em Dom Ago 10 2014, 01:15

Hoje, por mero acaso, vim parar aqui. Nunca tinha visto este fórum antes. Comecei a ler a tua mensagem, Vincent_Vega. Agora, para meu próprio espanto, estou mesmo a responder! Nunca escrevi em nada do género. Simplesmente não consegui deixar de responder. Talvez porque as tuas mensagens me fazem lembrar demasiado a mim própria, e isso é coisa rara.

Peço imensa desculpa pelo enorme testamento!...  Embarassed Espero que alguém o leia ainda assim!...

Espero não estar a cair no erro do costume. Possivelmente estou. Enfim, sou teimosa. Tentei ajudar as pessoas muitas vezes, quando, no fundo, quem mais precisava de ajuda era eu. Mas ainda hoje me custa demasiado ver, ouvir, ler, pessoas a sentir o que estás a sentir agora. Talvez no fundo seja tudo egoísmo, e se calhar só me importo porque eu própria me senti assim. Mas não desejo nada do que eu senti a ninguém. A ninguém.

Também eu tenho quase 26 anos, também eu sei exactamente aquilo que estás a passar. Não, não odiei o meu trabalho como tu, nem não consegui fazer o último semestre da faculdade, mas sei aquilo que estás a sentir.
Também eu sempre sonhei num eu melhor, diferente. Nunca conseguia.
Também eu quis ser escritora, mas enquanto adolescente. Depois perdi o jeito. Mas nunca escrevi tão bem como tu, de longe. E escrever tornou-se sinónimo de deprimir, porque acabei por escrever páginas e páginas de coisas deprimentes (não posso chamar sentimentos, eu não sinto de maneira normal e nunca sei de facto e que estou a sentir).

Talvez conssiga dar-te alguma esperança. (Ou então lá estou eu a armar-me em importante outra vez…) Espero que ajude de alguma maneira. A ti e a mais alguém que possa ler. A mim ajuda-me ler histórias de outras pessoas.

Muita gente que não me conhece muito bem considera-me uma sortuda, uma pessoa extremamente feliz. Na verdade, as coisas nem sempre são o que parecem. A verdade é que sim, agora sou de facto feliz na maioria das vezes, mas a palavra vazio é a que mais descreveu a minha vida. Há quem diga que a minha infância não foi muito normal, nem feliz, mas eu não vejo isso. Acho que nasci assim. Sempre fui assim. Não vale a pena entrar em pormenores dos factos que aconteceram, porque o que, de facto, importa, é como nos sentimos.

Não sei desde que idade fui de facto deprimida, mas a coisa afundou quando tinha 10 anos. E aí tornei-me numa rapariga com uma auto estima abaixo de zero, um estorvo, odiava-me, tinha nojo de mim. Batia em tudo o que encontrava em casa, fazia de propósito para me magoar, para me lembrar do burra que era, da má pessoa que era, da distraída que era, da pessoa vergonhosa que era, da horrorosa que era.
Comecei a sentir-me melhor quando o meu imc baixou dos 21 para os 18 em 2 meses, aos 17 anos. E comecei a mentir a mim própria. Acho que as piores mentiras são essas. Algum tempo depois, estava com um horroroso distúrbio alimentar, ao ponto de numa semana comer no total umas 1 000 kcal, menos do que eu deveria comer num dia, mas num só dia conseguir “estragar tudo” e comer quase 10 000. Sim, quase 10 000. Era um dia inteiro sempre a comer.
O pior era o que eu sentia, não o que fazia. E por isso o cortar-me a mim própria não era mau, era de facto um enorme alívio. O que, claro, começou com uma mentira a mim própria “é só desta vez, para ver se me distraio disto”. E começou uma espiral. Durante quase 4 anos andei nisto, sempre sem nunca ninguém se ter apercebido de nada. Continuava na faculdade, até com boas notas. Mas piorou. Muito. O que no início eram arranhões, passaram a ser cortes fundos, a precisarem de pontos, e de eu ter noção que as cicatrizes NUNCA iriam desaparecer. Nunca. Nas véseras dos exames, passei noites inteiras sem dormir, dias inteiros a cortar-me, dias inteiros a comer, depressa, sem parar, até me sentir tão mal, mas tão mal, que achava que ia morrer. E o pior, achava que isso até seria bom, mas que pelo menos devia de morrer mais magra. Fui a exames em jejum, e a continuar a pensar que o número da balança não poderia, nunca, jamais, em caso algum, subir.
Sempre achei que um dia me ia matar. Já aos 7 anos eu pensava que as pessoas que morriam tinham muita sorte porque iam dormir para sempre e nunca mais teriam de acordar.
E foi depois de eu já não conseguir arranjar uma desculpa para não ir à praia, depois de eu já não aguentar meses sem dormir, depois de eu achar que a minha mãe não ia aguentar saber que eu tinha morrido por me ter cortado demasiado ou por não ter comido há dias, que eu tive de juntar toda a coragem do mundo e começar terapia. Foi horrível. Sentia que o que queriam era o meu dinheiro. Mas tinha de continuar, eu sabia que tinha. Piorei. Os cortes eram cada vez maiores, e mais fundos. Deitavam sangue o dia inteiro e eu tinha de estar constantemente a trocar as compressas. Já passaram mais de 5 anos e continuo cheia de cicatrizes. Mas eu disfarço bem. Pouca gente as conhece. Um dia abri tanto a pele que via todo o tecido por baixo, com uma largura enorme. Estava completamente lixada. Depois de ficar com a ferida 8 horas aberta, para a minha mãe não descobrir, fui ao hospital. Levei 9 pontos e imensas palavras menos bonitas por parte dos profissionais de saúde. Fizeram de propósito para me dar pontos com a linha mais grossa para ficar com uma cicatriz enorme. Não me quiseram dar anestesia. Disseram umas tantas coisas menos agradáveis, enfim, já nem me lembro muito bem.
Decidi que já estava a ir longe de mais, e que este tinha sido o meu último corte.
Apesar de melhorar depois de me terem mudado a medicação, uns meses depois, tentei suicidar-me. Mas sim, eu estava mesmo melhor, sei que parece estranho. Eu já sabia que ia acabar por o fazer, de qualquer modo. Umas semanas depois, tentei de novo. Senti-me fracassada, nem isso conseguia fazer! E claro, lá ouvi palavras menos simpáticas por parte dos profissionais de saúde. Não me lembro de muitos pormenores, para além do “pareces uma menina de 16 anos” e “querias chamar a atenção não é!? Assim consegues!” Mas a minha mente é estranha, porque lembro-me claramente de uma senhora vinda de não sei onde me ter perguntado “O que leva uma rapariga tão nova e tão bonita como tu a fazer isso!?”, a idade, o nome, o curso que estudava, e de depois me ter dito “E já pensaste que com o teu curso podes vir a ajudar mais pessoas que te sentem como tu agora!?”.

Isso agora faz-me pensar que, se calhar, podemos fazer coisas que vão influenciar outras e outras coisas. E outras e outras pessoas. Por mais pequenas que as acções sejam.
Aqui fica a minha. Tu escreves maravilhosamente, não me pareces burro de todo, e conheces lados mais negros da vida. O que acho que deverias fazer? Não sei. Não conheço toda a história, não sou ninguém para dar conselhos. Mas posso garantir-te de uma coisa: Fica melhor. Vai ficar muito, muito melhor. Vais pensar “ainda bem que não me matei quando estive quase a fazê-lo, nunca saberia que isto ia acontecer”. E ainda “Fui capaz de passar por aquilo tudo.”
Disto posso garantir-te. Eu estive no fundo do poço. Não, não sou perfeita, estou longe disso, mas nunca voltei a ficar tão mal como antes. Acho que, se aos 10 anos, soubesse que hoje, aos 25, seria a pessoa que sou, teria ficado orgulhosa. Se aos 14 soubesse que ia conseguir não sentir nojo de mim própria, teria dificuldades em acreditar. Se aos 19 soubesse que ia conseguir ser a pessoa tao faladora e despreocupada de hoje, iria querer ter 25 anos depressa.

Vai melhorar. Não vai ser sempre um mar de rosas. A vida às vezes é mesmo uma m****. Mas vai melhorar. Por favor, tenta contar as coisas à tua psicóloga. Escreve como se fosse para um diário, e depois mostra-lhe. Eu faço isso com a minha, acho que ajuda. Mas também julgo que, o que quer que seja que ela te diga agora, vai ser difícil entrar. Por uns tempos considera ir a um psiquiatra e tomar algum anti-depressivo. Julgo que te vai ajudar também na concentração. Muitas vezes a falta dela é também um sintoma de depressão.

Continua a lutar, por favor. Por favor. Íamos perder um possível grande escritor.
Se eu conseguir ajudar em mais alguma coisa, não hesites.

Ana.

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Re: Não existir

Mensagem por mrbombas em Dom Ago 10 2014, 10:22

Parabéns por seres uma guerreira...

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Re: Não existir

Mensagem por Ana. em Seg Ago 11 2014, 13:14

Muito obrigada mrbombas. Smile Parece-me que aqui todos são. Não há cicatrizes exteriores que possam expressar as guerras interiores...
Gostava muito que o que escrevi ajudasse alguém de alguma maneira, nem que seja para dar um pouquinho de esperança.

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Ter Ago 12 2014, 23:29

Acho que gosto de vir aqui. Às vezes sentia-me um pouco indeciso, mas agora acho que posso dizer que gosto. “Gosto” nem é a melhor palavra, mas foi a que encontrei.

Cá por dentro fico sempre um pouco surpreendido por ter reacção ao que escrevo.

Não acho que escreva bem. E se vos disser que há uma parte de mim que diz que só recebo elogios à minha escrita porque referi no 1º texto que o meu sonho era ser escritor, tenho a certeza de que muito boa gente percebe por quê – porque eu no fundo sei que sou a escória, do lixo, do escroto, da bosta (bosta também leva*?) da porcaria da humanidade. E assim sendo, os elogios são somente para levantar a minha auto-estima, não justos de facto.

Não penso assim na totalidade. Há uma parte de mim que acredita que, de facto, as pessoas que leram os meus textos acham que escrevo bem e o dizem com sinceridade. E, no entanto, esta última frase tive de bater com mais força no teclado, a custo, enquanto que, quando é para me esculhambar, meus dedos batucam dóceis, ágeis e gentis por cima das letrinhas.

Tanta coisa poderia dizer sobre o que me escreveram.
Ana.,
Eu é que digo: não, não passo nem passei de perto aquilo pelo que passaste, nem pouco mais ou menos.

Também gosto de ouvir as histórias alheias. O que dizem os outros. Faz-me sentir ligeiramente menos sozinho, numa vida de solidão omnipresente. Toda a gente está longe, mesmo que a um palmo de distância.

Percebo na perfeição essa mudança em relação à escrita à medida que crescemos. Escrever na infância era para mim um exercício de transcendência enquanto que agora é, muitas vezes, continuar a chafurdar na lama, porque eu só escrevo sobre sentimentos maus, sensações más, pessoas más, situações más. O consolo possível (ou não) é pensar que não me lembro de nenhum “livro feliz” entre os melhores que li.

O número de clientes do restaurante onde trabalho aumenta bastante pelo verão. Domingo comecei a servir pires de comida e tintos, brancos, portos, martinis, favaios, sangrias e afins logo às 8h da manhã. Saí de lá às 23h e pouco. Sentei para almoçar, mas comi a prestações – pelo meio servi copinhos de tinto, minis, lambretas, sei lá + o quê. Como mal, fico com tudo entalado nas costas. Não tenho pausa para descansar, ir à casa de banho é um luxo. Ao almoço faço as contas e recebo no caixa, sirvo ao balcão, sirvo mesas na sala de baixo, ajudo as que servem na sala de cima, vou a correr ao pão. Depois do almoço sirvo copos ao balcão e nas mesas e depois faço-o ao mesmo tempo em que sirvo os lanches e petiscos. Mais tarde os jantares. Tem acontecido quase todos os dias de servir ao mesmo tempo mesas de jantar na sala de baixo e na sala de cima – à qual tenho acesso por uma difíceis escadas de degraus curtos e escorregadios. E ao mesmo tempo sirvo os pinguços no balcão.

Balcão cheio, pinguços a gritar o meu nome em cascata, a ameaçar, a berrar, a gritarem palavrões e a terem as conversas mais baixas que se possa pensar, enquanto eu faço o malabarismo de atender todos ao mesmo tempo.
Tive cãibras nas pernas desde por três dias seguidos. Quando chego a casa e já estou na cama. E é tão mau ter as cãibras como é agora a expectativa de que elas apareçam a qualquer instante.

Tomava alprazolam em SOS mas o SOS tem sido todo santo o dia. Na verdade já nem funciona como antes. Já não sinto o impacto que me derrubava na cama. Só fico mais lerdo, como estou agora, aliás, que já marchei 2 comprimidos de uma só vez antes de comer.

Neste momento estou a levar ainda com algo que me atormenta sempre: culpa.
Odeio-me por isso. Sinto-me culpado com extrema facilidade e castigo-me com pensamentos obsessivos. Acordo a meio da noite com a imagem de uma garrafa de tinto EA que me esqueci de cobrar numa conta. Não consigo adormecer a pensar no desentendimento que tive com os tipos que jogam às cartas à tarde no restaurante\taberna\bar.

Eles gritavam, havia pessoas a jantar na sala de baixo e eu, depois de ir lá à mesa das cartas pedir silêncio e não ser simplesmente ouvido, voltei e bati com a mão na mesa. Os senhores pareceram ficar ofendidos. E pelo menos dois deles são dos melhores clientes da casa. Mas o restrito grupo de melhores clientes não chega para sustentar qualquer restaurante. É preciso servir jantares. E eu tenho de servi-los a crianças, casais e meninas e ter como trilha sonora de fundo “f*da-se”, “c*aralho”, “p*ta que pariu”, “c*na da gaja”, coisas afins e piores. Servir ao balcão o coxo, vesgo que tem apelido de “P*nheta” por se masturbar discretamente debaixo dos balcões e nas casas de banho. Ver entrar o anão da aldeia que mantém um relação verdadeiramente circense com as pessoas. Ser ameaçado de pancada por um bêbado frustrado, especialmente a nível sexual.
Com os tipos na maldita mesa das cartas a coisa foi má porque bati com a mão na mesa deles e deixei os tais senhores feito 4 virgens ofendidas. O meu pai ainda não está informado sobre como a coisa se passou exactamente. Ele não estava lá. Passa menos tempo lá, agora. Ele costuma lamentar-se porque o ambiente de cartas e tasca afasta os clientes dos jantares, mas vai chatear-me por ter feito aquilo aos tipos das cartas. Ou seja: estou encurralado. Como sempre.

Mas mais factos da minha incrível fraqueza e mediocridade: o meu irmão mais novo, 3 anos e meio mais novo do que eu, vai sair de casa dentro de pouco tempo. Acabou a licenciatura na área das engenharias, andava doido para se pirar de casa e eu vou ser o último dos 4 filhos a sair, mesmo não sendo o mais novo. Esta simples ideia que eu mal consigo processar por inteiro, deixa-me doido, insano, agoniado até ao ponto em que eu digo a mim mesmo que não consigo me sustentar.

Mais: há factos sobre os quais não falei. Há meses o meu pai passou a empresa para o meu nome. Eu disse “sim”. Queria dizer “não” mas disse “sim” – porque sou fraco, porque sou medíocre, porque se vem um TGV eu estendo-me ao comprido para que ele passar por cima de mim. Pus-me num situação muito difícil. Não sei como sair dela e começo sempre a ver linhas narrativas difíceis que se cruzam. Problemas atrás de problemas, um momento angustiante encadeando em outro, requintes de crueldade, uma sucessão imparável de infelicidades que me convenço que vão acabar por convergir para aquele momento único: o da minha morte, o do meu suicídio.

Blá, blá, blá. Tanto ele fala e nada de fazer. Sim, sou um cagão. Não sei onde vou parar. Estes últimos factos vão estilhaçar-me nos tempos que aí vêm: o meu irmão a ir embora, estar eu – o filho fracassado e medíocre –, dependente de pais de quem não gosto lá muito e com quem é cada vez mais difícil conviver. A empresa está em meu nome, há um novo contrato por assinar que eu não quero – há o meu pai, a dona do restaurante, os filhos dela, todos à caça do meu cartão de cidadão por renovar.

Há o meu pai que dá-se com o tipo do banco que almoça sempre no restaurante e que certo dia no meio da pressão de uma hora de almoço me chamou e disse “Assina aqui!Assina aqui!”, “O que é?” perguntei eu, “Assina!Assina!” responde frenético o meu pai, e eu, como um cão amestrado, desenho o meu nome em vário papéis sem ler, sem saber que estava a contrair um empréstimo. Em cima desse, veio outro. E mais outro ainda. E a renda do restaurante está atrasada meses, cheques adiados, rendas das casas atrasadas e um processo judicial por vir por causa de uma inspecção, ainda no tempo do restaurante em nome do meu pai. Levaram uma bebida caseira, não facturada e com substâncias proibidas. Combinações do meu pai com um cliente da casa. Depois que a inspecção lá passou acabou-se a tal bebidinha caseira e, segundo o meu pai, qualquer coisa proibida “nunca mais”. “Nunca mais” durou até o negócio passar para o meu nome (pago menos impostos por ser estreante. Logo nos dias a seguir, a bebida da candonga lá voltou a circular. O meu pai estava com problemas de se lixar por causa da bebida proibida, mas isso em nome dele, em meu nome tudo bem.

O que mais eu posso dizer? Agora em Agosto nem médica, nem psicóloga, tudo de férias enquanto eu tenho justamente mais trabalho e inferno, ou seja, to cada vez pior. Meu alprazolam não dura até ao fim do mês e acho que devia procurar outro\a médico\a. Hoje de manhã fui ao meu centro de saúde. Eu não dormi nada ontem à noite. Tenho gaguejado muito, tenho tido tremeliques, movimentos bruscos na mandíbula, e muito de vez em quando com os braços e mãos. Pisco os olhos e é como se o meu cérebro “reiniciasse” e é uma sensação desagradável. Tenho tido batimentos mito acelerados e rápidos do coração que duram apenas uns breves segundos, e depois sinto um frio desagradável percorrer o meu corpo. Sinto-me indisposto cada vez que ando de carro ou autocarro, como era quando eu era muito miúdo.

Tenho pena de não ir aos serviços médicos universitários porque gostei da última médica que me atendeu lá. Pela primeira vez gostei realmente de um médico. Ela pediu uns exames, tenho os dos resultados, mas não como lhe mostrar até meados de setembro e isso se me matricular outra vez.

Nos resultados dos exames e segundo os valores de referência tenho o colesterol hdl (o bom) baixo. Tenho a 36, devia ter no mínimo a 55. E no hemograma e leucograma, tenho umas coisas abaixo dos valores de referência, mas pesquisei e não acho que haja algum problema.
Mas isso foi tudo pesquisa intensiva própria. Não sei até que ponto a diferença de valores é significativa.

Estou a escrever demais.

Sinto-me pessimamente. Minhas irmãs mais velhas entusiasmam o meu irmão mais novo a pirar-se. Eu também, digo-lhe “Pira-te daqui”, “Se fosse eu já tinha ido”. Ele anda meio ansioso, mas vai acabar por ir. Tem uma proposta de contrato de uma boa empresa e ainda outra entrevista por vir. Vai para Lisboa.
O meu pai diz que em Outubro quer sair de lá do negócio. Mas disse-o no ano passado também. Combinei comigo mesmo que, se não me licenciasse este ano, matava-me.

Não me licenciei. Não fiz, mais uma vez, uma única cadeira. Estou há mais tempo para fazer 6 cadeiras do que fiz vinte e tal. E estou vivo. Fiz um novo tratado comigo: se aquela m*rda de negócio do restaurante não acabar mesmo em Outubro e se eu não sair de casa a seguir, mato-me.
A quantas promessas de suicídio pode uma pessoa sobreviver? Espero que não a muitas.

Hoje ouvi uma pessoa na tv a dizer que admirava o robin williams mas que considera o suicídio um ato de covardia e que, portanto, acha-o agora um covarde.

Estou a lixar-me para o que pensam de mim depois de eu morrer. Tenho medo sim de tentar matar-me e não o conseguir. Tenho medo de descobrir que não sou capaz de o fazer. Não tenho medo da morte em si, nem de céus ou infernos, nem perco tempo a pensar se é um ato de covardia ou de coragem. Nada disso me interessa. Tenho medo da infelicidade. É a única coisa que me atormenta. Penso a fundo em suicídio e tenho uma crise de ansiedade, penso na cara inocente da minha sobrinha de um aninho e tal e dá-me vontade de chorar.
Penso em escrever, mas o tempo é curto com os horários que tenho. Penso no que eu posso fazer de mais prático com a escrita, mas nada me ocorre. Penso para onde eu poderia enviar alguns dos meus textos, mas não há “emprego” de escritor, nem eu tenho uma obra pronta, tenho fragmentos. Nem sequer acho que tenho algum talento especial.

Não sei o que fazer. Hoje fui ao centro de saúdo aqui perto, mas só havia uma médica a atender e só a partir das 14h. Quando fui lá à 9h vinha de uma angustiante noite em branco cheio de tremeliques. Quando fui falar com a senhora da recepção comecei a “gaguejar”. Tentei falar e saiu um espasmo, um grunhido da boca. E quando tentei continuar veio outro. Depois finalmente disse “Peço desculpa”. A senhora ficou com aquela cara de constrangimento que eu já vi tantas vezes. Eu fico constrangido, eles ficam constrangidos e eu fico mais constrangido ainda com o constrangimento deles. Depois perguntei se havia u médico que me pudesse atender. Ela disse que só a partir das 14h.

Quando voltei lá, às 14h havia uma fila enorme na recepção. Fiquei a andar de um lado para o outro e encontrei a senhora da recepção da manhã. Ela disse-me “Vá ali ao módulo 4”. Eu disse “OK”, mas com aquilo cheio de gente pirei-me. Centros de saúde, hospitais, deprimem-me. Tudo me deprime.

O alprazolam está a deixar-me lerdo. Está cada vez mais difícil digitar e o texto à minha frente é uma massa quase ilegível. Pelos erros de digitação, pelo texto confuso e mal amanhado, sinto muito. E mais ainda pelo espaço que ocupei.
Ana. independentemente de tudo o que eu escrevi aqui, foi realmente bom ler o teu texto.

Queria mesmo acreditar que dias melhores estão para chegar. Dizia o mesmo há 3 anos. E agora estou pior. Cada vez pior.

A vida não tem lá muita graça.

Vicent_Vega

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Escrita como terapia.

Mensagem por sereia_encantada em Qua Ago 13 2014, 02:14

Olá Vicent_Vega,

Pesquisa cursos de escrita criativa, de Pedro Chagas Freitas.
Iria fazer-te bem.
Força. Estamos aqui para te ouvir, para te ler, para te apoiar.
Boas energias.

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Re: Não existir

Mensagem por HugoSousa em Qua Ago 13 2014, 09:10

F*da-se Vicent,

Nem sei como ainda te agarras, como ainda consegues espremer de tudo isso as palavras que aqui vens deixar.

Não sou de dar conselhos sobre a vida pessoal de cada um, é muito complicado fazê-lo estando de fora. Mas isso de assinares papéis e ficares com um cancro (negócio) em teu nome é muito mau. Não me refiro à parte dos empréstimos ou processos a qual te vai lixar ainda mais a vida, refiro-me sim a valores, a que acho inconcebível um pai sujeitar um filho a tal situação, é um prostituir desprovido de sentimento daquilo que devia proteger. Já o vi acontecer e não auguro nada de bom vindo dessa situação, o sangue perde todo o seu valor.

Há muita gente a apregoar que o suicídio é um acto de covardia, há mesmo muita gente a opinar sobre tudo e sobre todos sem fazer a mínima ideia do que está a falar. Eu também não posso falar sobre isso mas a ter de dizer o que penso vejo-o com um acto de extrema coragem, sei que não conseguiria nunca perceber o que leva alguém a esse ponto, é-o impossível sem chegar perto desse limite.
Escolho acreditar que se estás aqui neste canto a escrever é porque ainda lutas um pouco pelo que tens em ti, escolho acreditar que ainda sabes que sentes, que ainda há uma pequena resiliência em ti que te faz olhar à volta antes desse ponto irreversível.

Não faço a mínima ideia de como poderás dar a volta a este teu castigar

castigo-me com pensamentos obsessivos... sou um cagão… o filho fracassado e medíocre… um cão amestrado

Nem te vou deixar palavras que te soarão ocas
Apenas queria dizer que gostava de te ver a sair disso.
Quão pior pode ser cá fora Vicent?
Mesmo que percas um ano a endireitar-te sozinho se calhar compensa face aos que estás a arrastar e perder nesse inferno? Talvez consigas ser mais para quem gostas se estiveres e vires as coisas de fora.

Pensa nisto:

Acho que gosto de vir aqui. Às vezes sentia-me um pouco indeciso, mas agora acho que posso dizer que gosto. “Gosto” nem é a melhor palavra, mas foi a que encontrei.

Pensa só que há algo mais

- - -

A escrita, de facto não tens como a avaliar, a autocrítica é muito complicada, ainda mais no teu actual estado. Tenta ver a crítica apenas pelas emoções que poderás provocar num ou noutro leitor.
Do que vi sabes agarrar o sentir em relação ao que te rodeia, a questão é se conseguirás ir para lá disso, de não fazeres uso apenas do desdém mas conseguires manipular outros sentimentos. Usares o que te moldou e escreveres para lá desse ambiente.
Mas uma coisa te digo, por mais que uses personagens distantes de ti acredita que irás ficar à mostra dentro de cada uma (eu só tive essa noção bastante tempo depois quando uma amiga me mostrou frases minhas onde eu não fazia ideia ter transparecido).
Fá-lo para ti em primeiro lugar e um dia pensa se poderás dar uma forma a esses pedaços que escreves. Cria objectivos mas não os castres com prazos, pois tempo é um luxo que agora não tens.

Fica por cá

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Re: Não existir

Mensagem por Ana. em Ter Ago 19 2014, 20:34

Vicent_Vega,

Então, se achas que eu passei por coisas piores que as tuas, e se fiquei bastante melhor, deve ser mais fácil acreditar em mim, não? E foram anos e anos daquilo...
Depois disso, em várias alturas pensei "Fogo, ainda bem que não morri!", e senti-o de facto ao ponto de a lágrima me vir ao canto do olho em pleno dia (eu, que nunca choro). E às vezes é mesmo só porque "só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido".

Acho que posso dizer que estive "para lá" da loucura. No entanto, também posso dizer que, aos 20 anos, aprendi algumas coisas que certas pessoas que conheço estão agora a aprender aos 60. Que me orgulho de dizer que não me pareço sequer um bocadinho com pessoas que fui conhecendo (porque, enfim, estava tão cega que não via o que tinha à frente dos olhos). E que, se calhar, tenho afinal mais força do que aquilo que eu pensava. Ainda estou aqui, a lutar. Será que outras pessoas estariam!? Posso cair 5, 6, 7 vezes. Vou-me levantar mais uma. E às vezes até eu própria fico admirada com a minha força, coisa que eu sempre pensei que não tinha.

E, se eu disse que nunca antes tinha respondido em nenhum fórum, porque achas que respondi à tua mensagem? Possivelmente porque o que tu escreveste me atingiu em cheio, certo? Consegues transmitir tudo pela escrita. E isso é, sim, um dom.

Faço minhas as palavras do HugoSousa. Todas as palavras.

Fico muito contente por teres gostado de ler o que escrevi.

Força, depois vais ficar orgulhoso de teres sido capaz!

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Ter Ago 19 2014, 20:59

Vicent_Vega escreveu:Mas mais factos da minha incrível fraqueza e mediocridade: o meu irmão mais novo, 3 anos e meio mais novo do que eu, vai sair de casa dentro de pouco tempo. Acabou a licenciatura na área das engenharias, andava doido para se pirar de casa e eu vou ser o último dos 4 filhos a sair, mesmo não sendo o mais novo. Esta simples ideia que eu mal consigo processar por inteiro, deixa-me doido, insano, agoniado até ao ponto em que eu digo a mim mesmo que não consigo me sustentar.

Mais: há factos sobre os quais não falei. Há meses o meu pai passou a empresa para o meu nome. Eu disse “sim”. Queria dizer “não” mas disse “sim” – porque sou fraco, porque sou medíocre, porque se vem um TGV eu estendo-me ao comprido para que ele passar por cima de mim. Pus-me num situação muito difícil. Não sei como sair dela e começo sempre a ver linhas narrativas difíceis que se cruzam. Problemas atrás de problemas, um momento angustiante encadeando em outro, requintes de crueldade, uma sucessão imparável de infelicidades que me convenço que vão acabar por convergir para aquele momento único: o da minha morte, o do meu suicídio.

É normal que te sintas triste por veres os teus irmãos com a vida mais encaminhada que a tua, mas acredita que a vida dá muitas voltas e podes vir a ter muitas surpresas positivas. Nem toda a gente acaba um curso superior aos 22/23 anos. Ainda ontem a minha mãe me contou que um antigo colega dela perdeu o emprego e resolveu estudar. Também me contou que ele morava lnge da universidade e que trabalhava durante o dia e estudava à noite. Pelos vistos, deu trabalho mas compensou.

De facto, não devias dizer sempre "sim" aos teus pais, mas eu percebo-te. Os meus pais tratavam-me muito mal quando eu era criança e na adolescência revoltei-me. Basicamente, fazia imensas patifarias aos vizinhos. Agora percebo porquê, porque ficava magoada dos meus pais os tratarem tão bem. Vê lá que o meu pai dizia-me na cara que não tinha paciência para mim mas chegou a ir ao funeral de uma vizinha nossa que mal conhecíamos. Qual é a lógica de não ter paciência para a filha e de ter paciência para ir a um funeral !? O mais curioso é que nunca consegui fazer mal aos meus pais. Quando gostamos de alguém, há um mecanismo qualquer que nos impede e também se torna quase impossível dizer "não".

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Re: Não existir

Mensagem por mamã_gu em Qua Ago 20 2014, 09:47

Quando gostamos de alguém, há um mecanismo qualquer que nos impede e também se torna quase impossível dizer "não".

Até pode ser esse o sentimento, mas antes de querermos agradar quem gostamos temos que gostar de nós, ou no minimo ter um instinto de sobrevivencia

No caso do Vicente_Vega é uma questão de sobrevivencia ele aprender a dizer não

Eu não sou exemplo para ninguem, mas a dada altura da minha vida ( muito mas mesmo muito semelhante com a dele exceptuando o facto de eu não ter ou estar a tirar uma licenciatura) eu tive que decicdi

Ou era EU ou eram eles...

Não precisamos desamparar quem gostamos, ou ser maus , ou virar as costas... basta sabermos respeitar , e ai lembro me sempre de uma frase que o meu pai uma vez me disse

" A nossa liberdade termina onde começa a liberdade dos outros"

Mas 1º que tudo acho que Vicente_Vega, tens que tratar da tua depressão e aprender a agarrares te ás tuas qualidades ( o saber escrever de uma maneira espantosa, ou seres um lutador porque mal ou bem consegues sobreviver a esse inferno, o não seres nenhum tontinho pois para frequentares uma licenciatura e teres tido o percurso que tiveste nos 1ºs anos tens que ser uma pessoa inteligente (que alias se vê na tua escrita)) e perderes o medo de os enfrentar

Pensa se eles te fazem tão mal... qual é o mal de tu te defenderes?


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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Qua Ago 27 2014, 21:51

O meu irmão mais novo vai embora de casa. Este fim-de-semana sai de vez, para Lisboa, onde vai trabalhar. Primeiro emprego.

Estou aqui a escrever porque sinto-me mal. Tão mal, tão mal, mas tão mal que vir aqui escrever é mais uma das coisas que eu faço para preencher o tempo e a cabeça com mais alguma coisa do que apenas sentir-me mal.

Sempre tive uma relação próxima com o meu irmão mais novo. Temos três anos e pouco de diferença e aqui estou eu, a vê-lo ir embora e a ficar para trás. Só eu, o meu pai, a minha mãe.

Mesmo já tendo sido mais próxima do que é agora, o que acho que é inevitável, eu e o meu irmão sempre tivemos uma relação de troca de ideias, de influência mútua. Tivemos mil e uma conversas sobre a vida, o futuro, sobre os infinitos dias difíceis, sobre a prisão de viver sob o jugo do nosso pai, sobre os interesses que se bifurcaram na adolescência – eu em direcção às letras, ele em direcção aos números e depois aos códigos.

Em todo o aparato que se montou com a saída do meu irmão – inevitável na minha família –, eu e ele sempre tivemos as conversas pondo de parte algumas das coisas mais difíceis – o facto de ele ir sozinho, de eu ficar para trás. O sentimentalismo, o expressar emoções, tudo isto se tornou muito difícil e pesado parar nós à medida que fomos crescendo.

Hoje despedi-me do meu irmão. Andava tão tenso a pensar neste derradeiro momento que quando os pensamentos a respeito vinham eu chutava-os para longe.

Amanhã levanto cedo para ir trabalhar (06:20) e não o vejo mais. Ele ia tomar café com um amigo para se despedir agora à noite, e passou no meu quarto para se despedir de mim. Eu tinha-lhe dito «Depois passa aí aqui antes de saíres que eu vou dormir cedo».

O meu irmão entrou, disse «A gente vê-se» e outras coisas afim. Demos um aperto de mão, eu fiquei sentado ao computador. Depois vi-o sair pela porta, a acenar. «Nada de muito emotivo», e «Não faças as coisas ficarem mais difíceis para ele», pensava eu. Quando ele saia voltou-se para mim e fechava a porta,  e eu vi na cara dele a expressão de quem segura o choro na garganta. Acenou-me sem jeito e fechou a porta.

Eu levantei-me e corri, abri a porta e chamei-o. Não sei se foi melhor ou pior.

Ele voltou já a chorar, fechei a porta, demos um abraço forte, dois, três. Ele disse coisas, eu outras. Ele disse que daqui a pouco eu ia ter com ele, eu disse o mesmo. Mas sei que dificilmente é verdade. Ele chorou, eu chorei, e quando eu choro as coisas ficam sempre piores. Não é alívio, não é desabafo, é a expressão da minha infelicidade, fraqueza, fragilidade, mas não é apenas expressão. Também eleva esses sentimentos negativos, aumenta-os. Como se fosse um desdobramento. São sempre cenas feias e que ficam a rodar sem fim na minha cabeça.

A coisa está má. Eu tinha dois planos para esta altura:

Plano 1 (e o mais fácil, em princípio): mato-me.

Plano 2 (o alternativo): ...?

Nada, branco. Possibilidades, muitos “talvez” e “se’s” muitas interrogações, mas nada de concreto.

Tenho sido pressionado a arranjar logo os meus dados para assinar um contrato de um ano no tal do restaurante onde estou com o meu pai. Só não foi feito ainda porque o meu bi caducou e está para chegar o novo.

Não quero assinar. Não quero ficar ali mais uma semana, quanto mais um ano.

As dívidas são muitas. Esta época do verão é a mais lucrativa. Se não saltamos fora nesta fase, penso, quando? Mas, por outro lado, há as dívidas. Em meu nome. Que porra eu que faço?

Seria tão mais fácil sem esta despedida emotiva do meu irmão. Nunca que lhe falei sobre suicídio – jamais o faria –, e no entanto ele disse, na tal conversa final «Cuidado com os comprimidos. Não tomes demais». Eu respondi «Hã?». Não sabia mais o que dizer. Quase parecia que ele sabia dos meus pensamentos e que estava a avisar-me para que não “tomasse comprimidos a mais”. Na verdade, devia estar a avisar-me para não me viciar em alprazolam, ou de não prejudicar a minha saúde tomando muitos, qualquer coisa assim. Mas disse-o com tal intensidade que eu fiquei com aquilo na cabeça e sei que, se chegar a hora, não me vai ajudar nada. Seria mais fácil pensar que, para o meu irmão, não ia fazer tanta diferença.

E penso nisso. Penso que, talvez, o Plano 1 não seja uma opção tão fácil. Que não tenho coragem para me matar. Que se o tentar vou ficar a pensar no meu irmão, naquela conversa e que nunca que vou ser capaz de levar a coisa até ao fim.

Ou talvez só precise de deixar isto para trás. Deixar passar algum tempo.

Está confuso. Desejo o melhor ao meu irmão. Sei que vai ser difícil. Já vejo à frente as nossas conversas deprimentes no skype, ao telemóvel. Ele lá, sozinho, sem conhecer ninguém. Eu aqui, nesta vida de filho fracassado, a aguentar o meu pai neurótico, os bêbados, os endividamentos, as rotinas sem fim de miséria e infelicidade. Ficar aqui, a pensar como estará o meu irmão. Nervoso por ele, mas também com inveja. Queria eu não estar aqui. Queria eu ir embora.

Tomei 2 mg de alprazolam mal ele saiu. Não sei se vai ser suficiente. Minha cabeça está a mil. Quando se trata de produzir pensamentos deprimentes, angustiantes e infelizes, meu cérebro é uma máquina.

E amanhã volto para lá. Para trabalhar. Viver é uma merda.

Meu irmão disse-me para continuar a correr como nós fazíamos. Disse-me também para eu continuar a rever uma das nossas séries de eleição, que vimos há anos, e que fomos revendo ao longo do tempo. Cada vez menos, diga-se. Essa tal série – uma entre várias séries e filmes de eleição – começamos a rever mais uma vez, há pouco tempo. Por causa de ele ir embora. Mas, mesmo vendo 4, 5 episódios seguidos, não conseguimos acabar. Ficamos a 3 episódios do fim. Ele disse-me para continuar a ver sozinho. A vida é mesmo melancólica. É mesmo uma merda. Quero morrer, mas não quero que saibam que eu morri. Que tal?

Estou a chorar outra vez. O mal é começar. Sei como vai ser isto. Baba e ranho noite afora. Já sinto aquela dor no céu da boca que me dá quando choro demais.

Quanto mais escrevo mais longe fico de dizer o que sinto. Isto de escrever também é uma treta. Quando mais precisas, as palavras não estão ali. Não há mesmo nada a dizer. Acaba sempre tudo neste silêncio escuro e deprimente. Agora és só tu e ele. E aguenta-te, que ninguém te oferece alternativa.

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Re: Não existir

Mensagem por Ana. em Qui Ago 28 2014, 00:26

Epa, fogo!

Acho que é só isto que tenho para dizer.

Tens mesmo noção de como escreves!? Fogo. Não tenho palavras.

E que nervos, que nervos!... Absorvo tudo o que escreves. Sei tudo aquilo que estás a descrever. Consigo sentir tudo como se fosse eu. Na minha própria pele. Tu consegues transmitir isso.

E tenho uma vontade ridícula, ao ler os teus textos, de fazer alguma coisa. Qualquer coisa. "Como vou eu conseguir mudar a cabeça dele!?" Se eu pudesse fazer qualquer coisa!... É que eu sei que é difícil. Nada do que eu te possa dizer vai "entrar". E sinto-me impotente.

Tu consegues tocar-me. Aliás, tu tocas-me à bruta. E não ajuda o facto de eu saber como é ficar assim, na escuridão, só comigo e com aqueles meus pensamentos, a chorar e chorar e chorar até adormecer, que nem uma menina. A pensar no que devia fazer e chegar à conclusão que não podia fazer nada. Nada. E de me enervar tanto porque o "nada" significava mais tempo daquela tortura, que me ia consumindo aos poucos. E de pensar que eu já não ia aguentar mais. O pensar vezes e vezes sem conta em como gostaria de ser outra pessoa. Daquelas, completamente diferentes de mim, que encantam de verdade. De ter nascido eu. Eu e a minha mediocridade. O sentir-me fracassada. Aquele sentimento de fracasso e de estupidez, de me sentir miserável e de ter pena de mim própria por ser eu.
De me perguntar o que estava a sentir e de não fazer a mínima ideia. Há de facto palavras para isso!? E que m*, que ódio. E depois lá vinha o "Porque raio não nasci eu outra pessoa!?"

Pensava que nunca mais me ia lembrar disso. Pelo menos, lembrar disso e sentir isso, numa altura em que eu não estou deprimida. É uma verdadeira m*. E é que nem há outra palavra. É só uma m* com todas as letrinhas que a compõem.

Se eu te conseguisse convencer... Se eu te conseguisse fazer mudar de ideias!... São tudo mentiras. Fantasmas.

Não assines o que não queres assinar. Tu consegues. Só precisas de dar o 1º passo, depois é mais fácil. E depois de dares o 1º passo, vais ficar orgulhoso de ti próprio. Vais sentir-te mais forte.
É possível que o teu irmão perceba que não estás bem. É teu irmão. Se calhar, a conversa dos comprimidos foi mesmo no sentido que a interpretaste.
Ias fazer-lhe muita falta. Nunca ninguém te ia poder substituir.

Escreve, escreve dezenas e dezenas e dezenas de páginas, se for preciso. Publica-as aqui, envia mensagem privada. Ia dizer que "adoro" ler o que tu escreves, porque escreves de uma maneira que me impressiona. Mas não é de todo a palavra certa. Porque estás a escrever na 1ª pessoa, porque sei o que é sentir isso, e porque sei que custa demasiado. E eu não estou a ler uma ficção.

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Re: Não existir

Mensagem por Lunebleue em Qui Ago 28 2014, 19:34

Vicent_Vega escreveu:O meu irmão mais novo vai embora de casa. Este fim-de-semana sai de vez, para Lisboa, onde vai trabalhar. Primeiro emprego.

Parece bom, não parece ? Ainda me lembro do meu primeiro dia de trabalho como se tivesse sido ontem. Fui muito bem vestida e satisfeita, mas a alegria durou pouco. Uma colega minha com um ar impressionado ( pela negativa ) a não acreditar que eu ia para ali trabalhar porque apesar de, na altura, eu ter 22 anos, parecer que tinha uns 15/16.

Pouco tempo depois comecei a ser alvo de assédio sexual por parte de uma senhora das limpezas. Para piorar a situação, ela vivia com um homem muito estranho que tinha "negócios" ( nunca percebi quais ) e dinheiro com fartura. Isto fez-me desconfiar que o homem tinha bares de alterne ou qualquer coisa ligada à prostituição. Para chegar ao trabalho, eu tinha de atravessar um descampado e vivia com medo de ser raptada por aqueles dois e forçada a prostituir-me.

O meu trabalho foi sempre o mesmo, só mudava de sítio.

O segundo sítio, era um dos bairros mais problemáticos de Lisboa e havia um cão que desatava a ladrar quando eu tentava passar como se fosse o dono da rua. Eu tinha que voltar atrás e esperar que ele estivesse distraído para conseguir chegar ao trabalho. Certa vez um tipo embirrou comigo e desatou a apedrejar-me. Felizmente, nenhuma pedra me acertou. (...)

No terceiro sítio, logo no início , uma colega pediu-me para fotocopiar um documento que eu tinha e até lhe dei um que tinha a mais. Algum tempo depois, como eu tinha pouca experiência, fui-lhe pedir para me deixar ver determinado documento, só para eu tirar umas ideias. Ela disse que nunca fazia esse documento, mas, uns dias depois, apanhei-a a fotocopiá-lo. Basicamente, mentiu para me prejudicar, pois eu até podia ser despedida por não fazer aquilo...

Acredita que isto é só um apanhado do que eu passei até que comecei a ter pavor de ir trabalhar. Hoje em dia, tenho um pequeno negócio em casa e nunca fui tão feliz.

Não desistas!

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Re: Não existir

Mensagem por Vicent_Vega em Qua Set 10 2014, 21:51

Sabem aqueles dias em que está escuro? Pois é, hoje está tudo escuro. Não começou bem, mas não estava tão mal assim. Só que agora, para ao fim do dia, ficou um negrume. Ou talvez não seja bem escuro, mais para o cinzento. E nem dá para ter a certeza por qual razão. São todas elas ao mesmo tempo. Uma razão assim qualquer, eu arranjo, uma coisa mais recente também.

Uma coisa mais recente: minha mãe descobriu que eu tomo ansiolíticos e já me infernizou. Isso chateia-me. Filho de um pai paranóico e uma mãe especialista em nos colocar para baixo, a partir de determinada idade eu tornei-me especialista em esconder. Esconder é uma necessidade, às vezes um prazer, é também instinto de sobrevivência. Minha mãe saber de algo é, em 80% das vezes, sinal de que o meu pai também saberá. Resta saber se, no julgamento da minha mãe, esta é uma novidade de colocar nos 80% ou nos diminutos 20%. Quais os prós e contras que ela coloca na balança eu não consigo adivinhar. E se a minha mãe me inferniza o meu pai então... oh, o drama, oh a tragédia, oh o caos. O CAOS!! Vou ser policiado, o big brother vai cair em cima de mim. Eu não vou dar informações de mão beijada e a paranóia vai tratar de cobrir o espaço vazio com as suas próprias e perversas linhas narrativas.

A ausência do meu irmão vai pesando com o passar do tempo. Os nossos horários são pouco compatíveis, por isso a comunicação é complicada e talvez com o tempo piore.

Quero dizer ao meu pai que quero sair daquele inferno de negócio e ele em breve vai pôr-me à frente um contrato de mais um ano. Tenho tentado imaginar os cenários em que estou a anunciar-lhe que quero ir embora dali. E porra, está difícil. Não contem a ninguém, mas coragem nunca foi o meu forte. Que coisa horrível de se constatar sobre si próprio. Mas é a estúpida verdade.

Está na altura das matrículas. Devia matricular-me se pretendesse continuar no mesmo. Não quero o mesmo. Mas não sei que m*rda fazer. Se for para continuar neste mesmo barco, mais vale matricular-me. Mas prometi a mim mesmo que, se não desse para mudar de vida, matava-me.

Fui à médica mais uma vez. Numa noite dormi apenas duas horas e pouco e no dia seguinte trabalhei mais de 13 horas. A isto chama-se Conhecimento do Inferno. E nesse mesmo dia, morto de cansaço, stress e de sono, tomei 2 mg de alprazolam. Adormeci pela meia noite. Às duas e pouco da manhã acordei para não mais voltar a adormecer. Fiquei horas e horas a encarar o teto do quarto. No dia seguinte trabalhei 7 horas. Depois entrei de folga. Nessa noite dormi umas 4 horas e pouco, com mais 2 mg de alprazolam. Fui à médica. Levei os exames que tinha feito uns tempos atrás e falei dos problemas com o sono que voltaram. Ela trocou-me o alprazolam por lorazepam. Olhou os exames e disse que eu estava com anemia por carência de àcido fólico. Receitou-me o tal do ácido fólico e marcou-me uma consulta com uma psiquiatra. Eu, como já tinha feito da outra vez, não colaborei muito com a ideia de ir ao psiquiatra, mas desta vez ela foi mais insistente. Saiu do consultório e voltou dois minutos depois dizendo que já estava a consulta marcada, sem o meu “sim”. Dia x, x horas. Se eu quisesse podia desmarcar. Não desmarquei. Adiei a coisa, mas agora provavelmente vou.

O tal do lorazepam é que, sinceramente, não constituiu em qualquer avanço. Sinto menos efeito do que sentia nos tempos em que o alprazolam funcionava com impacto. Volta e meia fico novamente em branco à noite, mesmo tendo tomado 2 mg de lorazepam. Enfim... a mesma porcaria de sempre.

To farto de me sentir triste. To farto de esperar por momentos de prazer sem nunca os ter. To farto. Não quero ser este deprimido e fracassado por estes anos afora. Não sou um pedinte da vida. Isto não correu bem, prefiro morrer.

Só começo a indagar-me como é que eu tanto penso no assunto e nada faço. Será que sou esse tipo de pessoa? Não deve haver muito mais coisas desprezíveis... Ou será que só preciso deixar a coisa amadurecer?

Com o tempo só mais dúvidas, só mais problemas, uma roda vida infernal que, sinceramente, não sei aonde me vai levar.

Como é que vou estar daqui a três meses? Não sei, e tenho muito medo de pensar.

Vicent_Vega

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Re: Não existir

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