Quem está conectado
7 usuários online :: Nenhum usuário registrado, Nenhum Invisível e 7 Visitantes

Nenhum

[ Ver toda a lista ]


O recorde de usuários online foi de 57 em Qui Maio 25 2017, 20:26

Mais uma para o molho

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Ir em baixo

Mais uma para o molho

Mensagem por marina6 em Ter Nov 11 2014, 07:13

Perguntei se podia ficar sentada a um canto da mesa da cozinha, a estudar. A resposta foi que não. Claro. Apenas mais um que não me quer por companhia, foi o que senti de imediato. Mesmo que depois tentasse temperar essa sensação, e tenha inventado desculpas, o sentimento ficou lá. Talvez ele também seja bicho do mato, goste de estar só, eu também gosto, ou receasse que alguém visse e interpretasse mal ou não quisesse alimentar qualquer tipo de expectativas, minhas ou dele, ou a talvez a minha incontornável beleza o deslumbrasse e distraísse, talvez fosse isso, pois... Certo é que a resposta foi que não.

Pergunto-me como seria viver uma vida diferente, ser outra pessoa, ter outra história, outra gente. Costumava observar as pessoas e tentar descobrir-lhes a vida, inventar-lhes história. Aqui há menos gente. Até isso fui perdendo. É incrível como é possível estar tão só rodeada de tanta gente, não me canso de me admirar com isso. Continuo a adiar coisas que queria fazer, não sei se ainda quero, mas pelo menos já quis, já me propus fazer. Adio na expectativa de as coisas morrerem pelo decurso natural do tempo e de poder fingir que as não fiz porque não pude e não por mera preguiça, inércia, indecisão, fraqueza. É sempre tão tentador e tão mais fácil culpar circunstâncias, terceiros, o tempo... Viver na corda bamba é isto, é não viver, é ir vivendo, ou deixar que a vida passe por nós como se não fosse a nossa e fossemos espectadores, narradores invisíveis de uma qualquer novela.

Depressão ? Sim, certamente, e das grandes. Daquelas que ficam para sempre e já são mais que uma doença, são um modo vida, uma maneira de ser que nos define e nos tolhe os movimentos. O desinteresse, o desapego, a imensidão da inércia, a vontade de dormir, dormir, dormir, dormir mesmo muito, sem sonhar, se possível. O querer muito falar com alguém sobre isto e o não poder. Porque não há ninguém que entenda, nem ninguém que goste de nós o suficiente para nos amar apesar da escuridão em que vivemos. Incondicionalmente. Alguém que nos adore sempre e sempre, mesmo quando somos feias e más e duras e frias e calculistas e estúpidas. Ninguém.

Sorrateiramente, passo à segunda pessoa do plural, finjo que não sou só eu. Talvez não seja, ou então haveria ninguém a enforcar-se num jardim público deixando filhos e amigos desorientados. Connecting the dots. Se há outras pessoas a viver na noite escura, porque não podemos encontrarmos-nos, tatear juntos e amparados os caminhos que não vemos ?

Grupos de auto-ajuda ? De apoio ? Haverá ? Será tarde demais ? O melhor é esperar para ver... deixar o tempo passar, pode ser que tudo se resolva. Em último caso, mais tarde ou mais cedo hei-de morrer porque cheguei a velha e será a minha vez. Não vale a pena apressar nada, deixar filhos e amigos desorientados, incomodar ainda mais com a minha ausência quem já incomodo com a minha presença. Esperar. Tudo se resume a isto. Espera.

Ainda assim acho prudente escrever aos meus filhos. Porque, lá está, mais tarde ou mais cedo, hei-de morrer. E não vá ser mais cedo, preciso de lhes dizer o quanto os amo, o quanto gostei deles sempre e sempre, mesmo quando foram, que nunca foram, feios e maus e duros e frios e calculistas e estúpidos. Incondicionalmente. O quanto amei cada um deles, individual e totalmente. Cada um teve o meu amor todo, por pouco que valesse, multiplicou-se e foi uno e único a cada um. Todos diferentes e todos iguais. Urge escrever a cada um.

Amanhã.

Tomei uma decisão. Vou começar a escrever as pequenas coisas que me fodem e me deixam ainda mais de rastos. Porque não é só uma coisa minha, uma doença, Eu não sou daquelas que têm a sorte de terem uma família top e uns amigos do melhor. Nada disso.

1270 euros. É o meu preço. É quanto não vale a minha vida. Eu ganho um pouco mais do que isso por mês. É o valor que teria de pagar por uma cirurgia bariátrica, não só porque sou estilo texuga mas porque a obesidade tramou-me. Tramou-me a tensão arterial, tramou-me o coração e, por fim, mostrou-me o quanto não posso mesmo contar com ninguém. Na semana passada tentei perguntar-lhe se ele já tinha pensado nalguma hipótese de solução para este problema de não termos dinheiro para eu me tratar. Calou-me perguntando porque lhe estava a falar nisso, se não achava que ele já se sentia suficientemente mal. De facto não, não acho. Devia sentir-se mil vezes pior e ainda seria pouco. Virei mundos e fundos para o tratar de todas as vezes que precisou. Foi operado duas vezes à conta dos meus esforços pelos melhores neurocirurgiões, nunca se cuidou depois disso. Foi internado com uma pielonefrite, nunca repetiu exames depois disso. Estou cada vez mais doente, de há um ano para cá, nunca, mas nunca me acompanhou numa consulta, num exame. Ontem pedi-lhe que me fosse ao posto médico pedir uma consulta do dia, respondeu que só podia à hora do almoço. Fiquei eu com o cartão e fui eu, claro. Lição re-aprendida, ora toma.

Ele saiu e eu enrolei-me sozinha chorar a tentar sonhar com uma vida diferente. Sonhei que tinha uma pequena horta com tomates. Não tenho uma horta, acho que não voltarei a ter. No meu sonho havia também um coelho, morto, mas com vermes na barriga, o que a fazia mover-se como se estivesse ainda vivo. Depois acordei.

Percebi agora que, afinal, quando ele vai à natação com a Sara, nunca lá fica a assistir. A miúda caiu no chão e magoou-se e não tinha lá ninguém, Depois no fim da aula ainda tem que ficar à espera que ele chegue para entrar no balneário dos homens. Por isso vou passar eu a ir com ela, segundas e quintas. De qualquer maneira eu também não tenho dinheiro para ir às aulas mesmo, assim faz de conta que não vou por causa da natação.

Sempre pensei que ele não teria uma amante. Agora já nem sei. O comportamento dele é de tal forma aberrante que começo a questionar as minhas próprias certezas. Faria mais sentido que se encantasse por outra e que isto não fosse só por profundo desprezo e desamor que nutre por mim. Ainda me havia de rir se por acaso acabasse por perder 20 ou 30 kilos e se ele tentasse, então, reatar algum tipo de intimidade comigo. Inútil e mal amada como sou ainda era capaz de o aceitar, não me admirava nada.

Enfim. Acredito que possa melhorar. Sei que nunca vai passar. São demasiados anos para ainda acreditar em discursos motivacionais e lugares comuns. Não é um vício, é uma doença, grave e que mata. E ainda que a morte seja uma bosta definitiva e cruel, sobreviver nem sempre é melhor, garanto. Pelo menos para os próprios. Suicida não posso ser. Tenho cinco filhos, duas delas pequenas, ainda precisam de mim.
Mas um dia. Um dia...  Razz

marina6

Mensagens : 2
Reputação : 0
Data de inscrição : 11/11/2014

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Re: Mais uma para o molho

Mensagem por Panda em Sex Nov 14 2014, 03:48

Devias melhorar por ti e pelos teus filhos, nao por ele.

Panda

Mensagens : 452
Reputação : 2
Data de inscrição : 02/03/2014
Idade : 35

Ver perfil do usuário

Voltar ao Topo Ir em baixo

Ver o tópico anterior Ver o tópico seguinte Voltar ao Topo

- Tópicos similares

 
Permissão deste fórum:
Você não pode responder aos tópicos neste fórum