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Mensagem por Vicent_Vega em Qui Set 03 2015, 18:15

É tudo muito branco no consultório da minha psiquiatra. Quando lá entro ela sorri-me desejando boa tarde e eu dou um “boa tarde” de cima de uma corda bamba – num primeiro momento acho que não devo mostrar grande infelicidade, nem grande felicidade. Logo depois pergunta-me “Tudo bem?” e fico a pensar se é uma pergunta a sério, se é já para valer e se ela fará sempre aquela pergunta padrão a todos os seus pacientes.
Há um papel que interpretamos, cada um bem encaixado no seu cliché. Fico cansado sobretudo antes de a conversa começar, por saber que vou ter de responder a muitas perguntas, às quais só terei respostas que certamente serão tidas como insuficientes. E depois, mais do que cansaço, sentirei frustração, tristeza e a mais absoluta solidão. À medida que o tempo avança constatarei que a pessoa que está à minha frente consegue preocupar-se comigo, indo além do cliché em que inevitavelmente está metida. Mas, por mais que vá conseguindo responder com sinceridade, não irei conseguir expressar o que sinto ou que penso. Acerto aqui e ali, mas não consigo dizer o essencial ou dar um plano completo. Irá faltar sempre alguma coisa, por mais formulações que crie. Os esforços são tantos que por vezes até acabo por redundar no mais certeiro fracasso, dando uma ideia distorcida do que de facto penso ou sinto. Nunca há palavras que cheguem. Ela não sabe, logo não pode compreender e a atitude compreensiva que assume é inútil. Não há palavras, nem gestos. Não há nada, nem ninguém e isso é tão negro, silencioso, tão doloroso e impossível.

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