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Mensagem por Vicent_Vega em Dom Set 06 2015, 16:20

          A mesa-de-cabeceira, a borda da almofada, a borda da cama, o teto branco – qualquer uma destas imagens pode ser a primeira a ser apanhada pelos meus olhos, consoante a posição em que esteja deitado, mas os primeiros pensamentos estão sempre à volta da nebulosa razão que me faz levantar. Por que razão ainda levanto? O que é que pode acontecer de pior não levantando em comparação ao que já acontece depois de levantar da cama? Perguntas sem boas respostas. Levanto. Encaro dias em que faço coisas que detesto, por vezes coisas que me entendiam, outras raríssimas vezes coisas que me até me interessam de alguma maneira. E, depois de levantar, depois de andar por aí, há os outros. Pessoas que cruzam os nossos caminhos, algumas tocam e fogem, outras andam sempre a aparecer. É verdade, muitas vezes a única coisa que sinto é que não gosto lá muito de pessoas. O ser humano parece um bicho egoísta, rancoroso, em constante colisão com o próximo. Não é uma visão generalista, nem ocupa-me por todos os momentos, mas anda sempre por aqui.
           No meu trabalho atendo clientes. Eles são um grupo heterogéneo e variam consoante o horário. De manhã cedo, durante quase toda a tarde e parte da noite atendo muitos velhos do tintinho e branquinho da tasca, eles de boina na cabeça, alguns ex-emigrantes, quase todos de direita, muitos fascistas – num sentimento em relação a Salazar que tem qualquer coisa de Síndrome de Estocolmo –, pessoas de uma realidade e modo de pensar a anos-luz de pessoas da minha geração\contexto de vida. O choque é evidente, a capacidade de adaptação, equilíbrio têm de partir de mim, desde logo porque sou eu que estou atrás do balcão. Só que, por outro lado, a realidade é mais extensa do que isso e a questão não é de funções, obrigações profissionais, mas sim de direitos e dignidade. A falta de educação e a brutalidade são práticas comuns da parte de muitas pessoas que atendo e, muitas vezes, apenas deixamos esses momentos que se sucedem para trás como uma tática para ir sobrevivendo.
           Uma vida assim, contando com 15, 16 horas de trabalho diário, torna-se extenuante, contamina-nos a alma. E não é apenas no meio do trabalho que toca conta de grande parte da minha vida que as relações humanas são complicadas. As relações familiares também são. O pai é o Big Brother neurótico, paranóico, sufocante, que faz dos outros espelho dos próprio defeitos, espelho das próprias culpas e frustrações; a mãe é a que é submissa em relação à maneira de ser do pai no que toca à relação dele com os filhos – “Já sabes como o pai é… Já sabes como o pai é…. Já sabes como o pai é…” – e o extremo oposto quando diz respeito a si mesma, e ao mesmo tempo é a mãe que expressa-se sempre no negativo, parece que nem se dando conta de que é uma cópia dos defeitos que via na sua própria mãe, sempre criticando, sempre dizendo que se alguma coisa não correu tão bem aos filhos é porque eles são assim e assado, fizeram isto e aquilo, tudo sempre na lógica de culpabilizar.
            Pelas ruas, por aí, não faltam pessoas para nos abalroar, para sugar o que puderem de nós. Andar pelo mundo é andar eternamente num campo minado, esperar pela sucessão de pancadas. O egoísmo impera e os verdadeiros gestos de abnegação, de bondade são raros e destacam-se bem da visão e ação umbiguista. Não que me julgue um ser à parte que é a vítima de um mundo cruel, tonando-se no bastião da moralidade e bondade. Também me vejo como parte desse mundo de pessoas ensimesmadas, egocêntricas. Não sei se nesses momentos somos humanos menos….humanos, ou se simplesmente esses dois extremos são as duas partes dessa mesma coisa que é ser humano. Não é também o que mais me faz pensar.
           Minha psiquiatra e minha psicóloga dão-me uma etiqueta: sou um pessimista. Pessimismo, depressão, transtorno de ansiedade generalizado, as palavras ou conjuntos de palavras às vezes pouco me dizem. É certo que faço o tratamento que me mandam, que tomo os comprimidos que me mandam, o que diz mais sobre o meu desespero e abertura para qualquer proposta que me apresentem para melhorar, do que a minha opinião sobre os meus estados mentais\de saúde. Talvez não consiga aceitar que sou um deprimido e um pessimista por não acreditar que possa “estar” deprimido e pessimista, acreditando unicamente que se “é” deprimido e pessimista e que, uma vez o sendo, é para sempre. E sendo assim, o melhor mesmo é não aceitar as etiquetas que me são oferecidas. E – talvez – não acreditar em “estar” pessimista e deprimido, ter só uma visão definitiva das coisas, seja apenas mais uma evidência de que as minhas “psi’s” têm razão. Só não me peçam para assinar por baixo. Não consigo.
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Vicent_Vega

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