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Mensagem por Vicent_Vega em Seg Set 21 2015, 20:57

Estou decidido a ir embora. Não vale a pena fazer promessas nem estruturar metas, porque nenhuma das duas coisas tem dado resultado e voltar a criá-las tornar-se-ia num processo com contornos de paródia.
Falta saber para onde vou. E, mais importante, falta conseguir pôr as pernas a mexer. Preciso de um trabalho e de um lugar para ficar. Se às questões conjunturais – desemprego, precariedade, austeridade, classe política medíocre e corrupta, tudo expressões gastas mas constantes – se acrescenta uma dificuldade poderosa de juntar o necessário impulso interno, a situação parece complicada o suficiente para que se comece a escrever com a palma das mãos a suar, o coração acelerar num disparo e abrandar de repente como que distribuindo gelo pelas veias e artérias, a barriga em tsunami, a respiração insuficiente, o quarto a apertar-se em torno da secretária – eu enclausurado num cubículo criado pela minha mente.
E é através desse problema que é a excessiva autoconsciência que também tento usar para pôr cobro ao estado de quase desespero que ameaça ficar pior, pior e pior. Tento usar a lógica, recorro sempre às eternas conversas com as minhas psis sobre o meu pessimismo e baixa autoestima, procurando uma quebra abrupta com aqueles mesmos pensamentos viciados criados pelo meu cérebro chato. Só que isto é mais difícil do que eventualmente pode parecer à primeira vista. Pôr a mão num cérebro repleto de teias de pensamentos mais do que rotinados, mexer com aquilo que está no âmago – mexer, enfim, com aquilo que eu sou – e conseguir a hercúlea tarefa de alterar algo que é constante. Até posso mudar o meu pensamento agora, conseguir não entrar numa situação de ansiedade e desespero que me obrigue a enfiar goela abaixo mais um alprazolam. Só que o monstro é conseguir esse mesmo esforço durante todos os momentos em que estou consciente, policiar e transformar o cérebro. Pode haver coisa mais difícil? A maneira como as minhas psis dizem que é possível mas dá muito trabalho, faz logo a minha intrincada teia de pensamentos pessimistas declarar impossível uma mudança total. Uma vez pessimista, pessimista para sempre. Uma vez tão naturalmente infeliz, infeliz para sempre. É bem capaz de ser verdade, mas a nano-micro-luz ao fundo do túnel é quando conseguimos, mesmo que num suspiro, assumir que essa pode ser apenas e somente uma conclusão típica de um cérebro viciado de um pessimista.
Preciso mesmo, mesmo ir embora. Encontrar um lugar para ficar, um emprego, para poder afastar-me de vez de influência perniciosa que atualmente os meus pais têm em mim. Preciso mesmo dessa próxima paragem mágica. Sei que preciso muito mudar a minha cabeça, e que isso é certamente mais essencial do que qualquer mudança de lugar. Afinal de contas, para onde quer que vá, tenho de levar-me atrás.
Por algum lado é preciso começar. Primeiro o ovo ou a galinha, tanto faz. Desde que, por fim, encontre um modo sustentável de ir vivendo. Conseguir, por exemplo, relacionar-me com os outros. Muitas vezes odeio as pessoas, com quem também não tenho talento para lidar. E, no entanto, preciso delas como preciso de ar. Não sou uma ilha, nem quero ser. Enquanto a bendita transformação não chega, agarro-me a todas as bóias à vista. Não sei se há realmente alguém aí, mas se há, olá, prazer (ou não), sinto muito por qualquer coisa, mas façam-me o favor de, se alguém perguntar por mim, dizerem – nem que tenham que mentir – que eu já sai, que já me pus a caminho.
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