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Saída de Emergência - http://o-homem-no-escafandro.blogspot.pt/

Mensagem por Vicent_Vega em Sab Set 26 2015, 23:30

Era criança quando aprendi a fundamental arte de ser um astronauta sem tirar os pés do chão. Assim como quem diz, estar na lua, divagar, suportar as maçadoras horas que se acumulavam comigo sentado numa secretária escolar. Todas aquelas matérias, páginas sequenciadas, capítulos, disciplinas, toda aquela ordem, todos aqueles horários. Na primária houve o professor fixe, a professora que deixava-se facilmente atormentar por crianças do 2º e 3 ano (estudei numa sala onde eram dados os dois anos ao mesmo tempo) e que acabava as aulas a chorar – até que um adulto viesse finalmente dominar a situação –, a professora-rã, de histeria esganiçada, semelhante a uma vilã de desenho animado e que fazia das idas às aulas um lento e agonizante caminho e, por fim, a melhor professora, a que me fez ver que a minha imaginação não era só um instrumento de escape inconveniente, mas que também podia ser uma parte mágica, válida e significativa da minha vida.
Desde cedo o dia-a-dia era preenchido por obrigações que me iam enchendo a mim de aborrecimento, a cabeça e até o corpo exprimidos num sufoco. Ganhei prática em abrir saídas de emergência. Podia estar numa aula de história e acabar comigo mesmo como um explorador no Egipto, a encontrar uma magia negra que dá nova vida a uma maléfica versão de Tutancámon, a imaginar-me numa corrente sanguínea enquanto um glóbulo branco parecido com um Power Ranger que combate um poderoso vírus instalado num corpo humano, isto em plena aula de ciências. Podia estar numa reunião familiar e fugir para o espaço, trabalhando numa trama intrincada que a determinada altura punha-me perdido. Podia estar numa longa viagem de carro, o ligeiro cheiro a combustível a deixar-me enjoado, eu a tentar abstrair-me dessa indisposição olhando pela janela do carro e imaginando que o vidro é a tela de uma televisão, a paisagem lá fora as imagens de um documentário cujo relato eu crio mentalmente – péssima opção que invariavelmente terminava mal, ou seja, comigo a vomitar, quase sempre dentro do carro.
Tenho chegado cedo ao restaurante\tasca onde trabalho e permaneço preso. Nesta manhã sou protegido por um nevoeiro espesso e não sou seguido por uma figura sequiosa que às 8 horas da manhã costuma vir atrás de mim e, antes que eu tenha tempo de acender as luzes e ligar a televisão, já me pede um verdinho para começar o dia. O nevoeiro cobre-me, entro mais sossegado e só dão pelo estabelecimento aberto quando coloco a esplanada na rua. Seja como for, é só o começo, mais um. Entretanto, virão as tarefas entediantes, repetitivas, num eterno vai-e-vem entre pipos, arcas frigoríficas, copos em miniatura que lembram-me candelabros, atendimento de mesas para o qual eu estou tudo menos fadado. É preciso inventar estratégias – que não funcionam realmente, note-se – para aguentar os dias. Divido-o em partes, metas as cumprir: a primeira parte da manhã, até às 10 horas, a segunda parte da manhã, o pré-almoços – um branquinho! Um porto! Um sumo do norte! Um Moscatel! Um Martini! Um Martini com cerveja! – a longa fase dos almoços, o pós-almoços, os pinguços infelizes a ir e vir, clientes boomerang a bombardear-me – Uma Mini (pronunciando-se “menê”)! Olha aqui ó pá! Bota um cheirinho de bagaço aqui no café! Um xiripiti! Um tinto! Um rouge! Um traçado! Um tintinho! Um tinto! Um tinto! Um tinto!!!! Até um “período” me pedem. O que é um período? Um copo de vinho branco com groselha… imbecilidade que só lembro de ouvir como piadolas nos primeiros tempos do básico.
A minha última professora da escola primária marcou-me pelo incentivo à escrita e imaginação, por fazer-me acreditar que tinham qualquer coisa de bom, o que eu não sabia ao certo. Escrever e desenhar passaram a acompanhar-me ao longo dos anos, o desenho foi sendo abandonado ao poucos para se tornar hoje em raros e pequeno rabiscos de caras barbudas de piratas desdentados que desenho na beira de cadernos e papéis descartáveis. Escrever ainda dura, resta saber até quando e qual afinal o sentido. Ou talvez essa parte do sentido nem seja propriamente importante.
Imaginar também sempre dura. É desaparecer, fugir. Em meio a realidades limitadas ou insuportáveis abro uma saída de emergência e vou mentalmente para outro lugar. Não exatamente para onde eu quiser, porque isso seria privilégio a mais, mas sim ir para outro lugar que seja onde eu estou. Às vezes é um exercício complicado, que a minha crónica falta de concentração atual dificultou exponencialmente. Mas mesmo que não consiga viajar para longe, sempre posso deslizar ligeirinho com um pé para fora. Como estar a servir copinhos de vinho uns em cima dos outros e não precisar estar somente de pensar que estou a encher um copo, depois outro, outro e outro. Começo na minha cabeça a recitar um poema sobre a passagem do tempo: “Quando a hora dobra\Em triste e tardo toque\E em noite horrenda\Vejo escoar-se o dia\Quando vejo esvair-se a violeta\Ou que a prata a preta têmpora assedia\...” . Ou então um de evasão: “Vou-me embora para Pasárgada\Lá sou amigo do rei\Lá tenho a mulher que quero\Na cama que escolherei\Vou-me embora para Pasárgada\Aqui não sou feliz\...”. Ou então a melancolia, sempre a melancolia, por exemplo com Sylvia Plath: “As colinas penetram na brancura\Homens ou estrelas\olham-me com tristeza, desiludo-os.”. Às vezes escalo o 11 da seleção Brasileira do Campeonato (Copa) do Mundo de 1998, vá-se lá saber por que razão, e lá começo “Taffarel, Roberto Carlos, Cafú, Aldair, Júnior Baiano, Dunga, César Sampaio, Leonardo, Rivaldo, Bebeto e Ronaldo”. Curiosamente, não é uma seleção vitoriosa, mas sim derrotada numa final dramática, com direito a mistério por trás da Desilusão, com letra maiúscula mesmo. Também repito uma vez após a outra excertos de livros: “Quando certa manhã Gregor Samsa acordou de sonhos intranquilos, encontrou-se em sua cama metamorfoseado num monstruoso inseto”.
Especializei-me em fugas mentais, em derivas imaginativas, enquanto a vida cá fora ficava marcada pela inércia. No horizonte vejo a possibilidade de, talvez, apresentar-se a oportunidade ideal para uma fuga, uma tentativa de libertação. O que se pede quando chegar o momento é que eu me engrandeça, que seja dono da minha vontade, que tenha voz, alma, coração e cabeça. O historial não é animador, mas os dias infelizes e miseráveis não se vão somando vão. Transformar a frustração, a infelicidade, a mediocridade do que vivi em coragem e força para mudar. Com planos ou só por impulso, à força ou com naturalidade, preciso é sair da situação atual. Tenho-me mentalizado para isso. Mas ao lado convive aquela voz interior negra e obtusa, que nas alturas importantes ameaça sempre amedrontar-me até ao ponto de bloqueio, diminuindo-me até eu me tornar menos humano do que todos à minha volta, esfrangalhar-me até eu ser o primeiro ser humano na terra sem capacidades, um trapo indesejável que não pode ser encaixado em lado algum, um fraco, um micróbio, um nada.
Se eu soubesse rezar até o fazia. Não é boa ideia fazer exclusões quando ainda agora se pensou que se está disposto a jogar todas as fichas. Não é boa ideia descartar o lado mágico quando tudo o que se procura é a transcendência. Isto parece tudo muito complicado, mas na verdade parte do problema são as minhas lentes, e a autoconsciência não me serve de muito. A minha questão nada mais é do que uma das questões mais banais que já passaram pela cabeça dos seres humanos – O QUE EU FAÇO COM A PORRA DA MINHA VIDA?

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Mensagem por Brick em Dom Set 27 2015, 17:14

Valoriza-te, faz qualquer coisa homem! És talentoso demais para estar na sombra! Vai à luta! A vida é para isso mesmo, levanta-te e mexe-te!

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Não sou médico! Todas as informações prestadas sobre desmames têm como base uma experiência pessoal com antidepressivos e ansiolíticos e não substituem as recomendações dadas por pessoal qualificado!(Psiquiatra ou Médico de Família)

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Re: Saída de Emergência - http://o-homem-no-escafandro.blogspot.pt/

Mensagem por mrbombas em Seg Set 28 2015, 19:16

Com um talento desses, canalizado para o sitio certo tínhamos o Nicholas spark 2.


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Re: Saída de Emergência - http://o-homem-no-escafandro.blogspot.pt/

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